12de Agosto,2020

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18 January 2020 Written by 

Geografia Sentimental

Ainda no rescaldo do aniversário fui soprar as velas do tempo para a montanha, a minha geografia sentimental. A escolhida acabou por ser a serra da Arada, seguindo e reinventando o trilho Maia, entre as aldeias de Covas do Monte, Covas do Rio e Pena. A primeira paragem foi no vertiginoso Portal do Inferno. Há precisamente oito anos criei ali uma casa para troca de livros em jeito de Crónicas da Terra Ardente. Quatro livros ainda resistem à solidão e à humidade. Nesse dia plantei também ali uma árvore, entretanto desaparecida, seja porque o Inferno não é um bom sítio para árvores ou porque as cabras lhe roeram a vida.

Saí do Portal e fiz-me à corrida. Atravessei o mínimo de alcatrão que o plano exigia e iniciei a descida pela vertente oeste para a Pena. Pelo meio recordei no local onde há alguns anos atrás andei à procura de lousas de xisto para enfeitar o jardim lá de casa. Passei de soslaio pela aldeia e prossegui em busca do mítico Caminho Onde o Morto Matou o Vivo. O nome do percurso tem origem num episódio duplamente infeliz. Há décadas atrás, devido ao facto de a Pena não possuir cemitério, os habitantes tinham que levar os defuntos para Covas do Rio. Certo dia, e como o percurso inicial é muito íngreme, um homem escorregou e o caixão caiu-lhe em cima, matando-o. Mas os mortos não contam histórias e os vivos tentam resistir ao abandono como podem.

Misteriosamente, alguém começou a espalhar bonecos por este caminho e outros foram surgindo entretanto. Desconheço o motivo, mas a ideia pareceu-me ótima, tanto que também por lá deixei alguns. No cimo do vale de memórias, as fragas adensam-se numa livraria geológica de suster a respiração. Lá no fundo, entre as sombras, o ribeiro galga a penedia melancólica por entre a vegetação exuberante. Fiz e refiz metade do caminho. No regresso subi ao topo da fraga do lado esquerdo do ribeiro da Pena, onde almocei com a melhor panorâmica da zona, do alto da livraria geológica. As vistas são tão fantásticas quão vertiginosas!

Fui depois em busca do trilho que desce do pico para Covas do Rio. Escondido e esquecido pelo tempo, ressurgiu com a limpeza protagonizada no contexto das provas de corrida em montanha. Logo depois de um início calmo e de vistas largas, o trilho mergulha numa inclinação bastante acentuada até que a encosta se revela domesticada pela praga das plantações de eucaliptos. Passei de relance junto ao rio e iniciei a monótona subida pelo estradão para Covas do Monte. Valeram as progressivas vistas generosas sobre o vale.

Já com a aldeia comunitária no horizonte apanhei um novo trilho que me guiou pelo tempo e fui encontrar Covas do Monte como se tivesse regredido dois séculos, com as suas ruelas estreitas alcatroadas pelo dejectos das cabras. Acabei por apanhar o regresso dos animais do monte, que o fazem de forma autónoma num instinto consentido, e tive de esperar o escoamento do trânsito.

Passei a aldeia e iniciei a espetacular subida para o Portal do Inferno. O sol já se tinha escondido e o ribeiro seguia manso e bucólico, pouco importado sobre as voltas do mundo. Os últimos temporais fizeram alguns estragos, partindo os velhos troncos dos castanheiros que guardam os rebanhos. A subida técnica e acentuada provocou também alguns estragos, lembrando-me que a montanha não se compadece com uma forma física adocicada por bolos e festas.

E assim se festejaram 39 anos, entre a solidão consentida da montanha, passando como uma brisa ténue, onde o tempo tem um ritmo diferente e paisagem parece ser eterna.

 

Recomeça....

Se puderes

em angústia

E sem pressa.

E os passos que deres,

Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,

Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.

Sempre a sonhar e vendo

O logro da aventura.

És homem, não te esqueças!

Só é tua a loucura

Onde, com lucidez, te reconheças...

(Sísifo, Miguel Torga)

 

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pt



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