Esta estória passa-se algures na Arrábida, em cache cuja identidade já se desvaneceu no tempo. Mas o lugar foi ali para os lados de Setúbal, entre a cidade e a serra. A cache levou o carro por estradas menos próprias, de terra mal batida, muitos calhaus e rasgos. Por fim, a aproximação final, a pé… e, já pelo meios dos matos, a coisa de 30 metros, começo a ouvir vozes… “scchhhh…. ouço gente… que chatice, devem ser caçadores, aqui, só pode…!”. Mas não nos ficámos… continuámos a avançar, e o som de humanos à conversa intensificou-se. E a curiosidade a incitar a mais um passo, a agulha do GPS a apontar para ali, e os metros estimados a descer. Quando finalmente foi obtido contacto visual, ficou claro que não se tratavam de caçadores, só podiam ser na nossa estirpe… geocachers.
Nos dias que correm tudo no Geocaching se banalizou. Incluindo o encontro casual com outros geocachers. Aquilo que antes era uma festa e que inspirava longas conversas e trocas de contactos, hoje tende a resumir-se a um acenar de cabeça e adeus. Mas esta história é do antigamente, dos tempos em que não era muito frequente encontrar outros parceiros de hobby…. e passa-se na em Março de 2006, quando ainda era costume escrever-se os logs em inglês.
O carro ficou no parqueamento recomendado, ainda a umas centenas de metros do ponto zero. O passeio fez-se bem, o dia estava invernoso, cinzentão, trazendo uma aura especial aquela paisagem oceânica. Já na zona da cache, pensei subitamente ter encontrado… ena pá… que container tão grande.. e tão bem escondido, debaixo de pedras, num alvéolo rochoso. Abro-o à espera de encontrar o característico logbook e… nada disso, a caixa estava cheia de ferramentas e utensílios de pesca. Quem será que deixou aquilo ali ao abandono, para todo o sempre….?
Há umas semanas houve um certo alvoroço na chamada “comunidade portuguesa de Geocaching”. A razão? Terem aparecido fezes, ordinariamente conhecidas como “merda”, no interior de uma cache. Na ocasião, quem atentasse nas vozes, seria levado a pensar, entre outras, duas coisas: que era acto inédito e que se tratava de um ajuste de contas muito pessoal, entre membros da dita comunidade. Ora, inédito, certamente não era. E quanto á segunda possibilidade, sinceramente, tenho bastantes dúvidas. Com mais facilidade um “muggle” javardo pespega com uma destas do que um bem asseado geocacher, mesmo aqueles de mente conspurcada, que os há. Mas adiante, o que eu queria mesmo era retirar uma certa nota conspiracionista a estes inconvenientes episódios, porque o que tenho hoje para contar está comprovadamente despido de qualquer factor comum. Trata-se isso sim, do mais porco dos elementos aleatórios. Senão vejamos…
A cena passa-se durante a minha visita de Maio de 2012 a Praga. Como alguns saberão, Praga é a minha segunda cidade, capital de uma Pátria adoptiva a que tantgo quero. E portanto não sertá de estranhar que por lá me desloque com bastante à vontade, conhecendo bem a rede de transportes públicos e procurando caches em cantos rebuscados da urbe. Ora neste dia, não particularmente bonito, nem particularmente frio, nem particularmente nada, em suma, completamente banal, sai eu para uma pequena caçada que implicava quatro ou cinco caches. A primeira, era um ajuste de contas. No ano anterior tinha lá estado e não tinha encontrado nada. Agora, o contentor está de volta, num novo local, ligeiramente afastado da posição original. Trata-se de um local sem nada de especial, à beira de uma via rápida e de uma ponte que a atravessa. Desta vez encontro-a e em poucos segundos. Aquele sorriso de vitória que todos conhecemos desenha-se-me nos lábios. “Estás ai…”. É um ovo de plástico, alojado numa reentrância de uma árvore. Apanho-o, desco-o à altura do peito e é nesse ponto que o abro… uma surpresa que dura milésimos de segundo… a caixinha estava cheia de líquido, que desaba sobre o meu corpo e pernas, apenas ressalvadas por um instintivo desviar. Água… talvez tivesse ficado mal fechado e a chuva tivesse feito das suas..? Errr. não. O cheiro é ligeiro mas não deixa enganar. Acabei de ser brindado com um duche de urina. Pronto, fecho o ovo, deixo no local onde o encontrei, dou o “found” como “found” e afasto-me a matutar na minha má sorte.
A cache seguinte não fica nas imediações. Vejo o autocarro certo passar por mim, levanto os olhos, vejo uma paragem a uma centena de metros e corro. Entro ofegante. Passados alguns minutos apeio-me e reinicio a caminhada que me levará ao próximo “found”. Esta cache é dedicada a um pequeno clube de futebol e está colocada no muro que demarca o seu campo desportivo. Encontro-a sem qualquer dificuldade. Está escondida atrás de um painel publicitário e é de tamanho regular. Abro a caixa e, maravilha… cheia de bosta, felizmente já algo seca, pelo que o cheiro é suportável. Abro-a e fecho-a mais depressa do que o diabo pisca os olhos. Tive sorte dentro do azar. Não me caiu em cima nem me conspurcou para além da memória visual que ficou.
Portanto, se um dia encontrarem fezes numa cache, dêem-se como felizes. Isso não será nada, em comparação com este espectacular um, dois. Ou dois em um. Duche de urina, caixinha de merda, no espaço de meia-hora, separados por 3 ou 4 km.
Talvez começar pelo príncipio: quando a Groundspeak implementou o sistema de “Favorites”, já eu tinha há muitos anos uma lista chamada “Caches Favoritas”. Esse rol era aliás uma evolução de uma ainda mais antiga lista que denominei “Top 10 Caches”. Como o seu nome indica, pretendia ai reunir as dez caches que mais me tinham agradado. Mas a verdade é que passado algum tempo as dez já iam em vinte e tal e, sem conseguir decidir-me pela eliminação de uma mão cheia delas, mudei o nome da lista, tornando-o mais liberal, e segui em frente.
Ora foi portanto com naturalidade que encarei a instauração dos “Favorites” como uma terceira geração desta minha lista. Só que, já se vê, mesmo sem a rigidez das dez primordiais, esta minha lista tinha mesmo assim critérios muito exigentes. Muito mais do que a Groundspeak burilou com o seu ratio de um favorite para atribuir por cada dez achamentos. Credo! Por cada 10? Nem pensar que me disponho a distinguir uma cache em cada dez que encontro. O meu ratio real será talvez de 1 em cada 100. Ora deixem-me lá ver… tenho 5.640 founds e 101 “favorites” atríbuidos. Já é uma bela liberalização do meu critério inicial, mas mesmo assim completamente à margem dos padrões correntes.
Depois, não sou grande entusiasta do próprio conceito. A Groundspeak passou anos a negar a implementação de um sistema de classificação de caches, e acabou por o fazer. Só que, como em tantos outros contextos, vingou a corrente ditadura do pensar positivo. Passo a explicar: nesta era Facebook, onde “Like” se tornou parte da linguagem corrente, não existe uma contrapartida, um “dislike”. Está-se a tornar socialmente proibido não gostar ou discordar. E isso é uma ditadura, porque como em qualquer ditadura existem duas vias legais: apoiar ou ficar silencioso. Ora o sistema de “favorites” é precisamente isso. É-nos permitido gostar de caches e manifestar esse gosto. Não nos é permitido expressar opinião oposta. À boa moda salazarista, ou se vota a favor, ou não se vota. É esta a liberdade que se tem na hora de abordar a avaliação de uma cache que acabámos de encontrar.
Por fim, já ando um bocado enjoado dos resultados prácticos da “favoritizações”. Para uma cache se distinguir, das duas uma: ou é tudo acerca do contentor, esquecendo que este não deveria ser nunca um fim em si, ou é sobre uma cache que colocam em risco o pescoço de quem a pretende alcançar. E disto não varia muito. Ora como eu não sou dado nem a uma coisa nem a outra, resta pouco para mim como beneficiante da informação que decorre da atribuição de “favorites”.
Quando o António me disse que estava a tratar de criar uma multi-cache para cada um dos seis percursos PR (Pequena Rota) existentes no segmento do concelho de Tavira da Serra do Caldeirão, soube desde logo que tinha ali entretenimento garantido. Apesar de não ser grande fã do que quer que a serra algarvia tenha para dar ao caminhante, fiquei logo entusiasmado com a prometida proximidade de seis caches envolvendo umas boas passeatas a pé. Depois, foi esperar, com paciência… primeiro que fosse feito o trabalho de “owner”, depois, pela publicação. E, finalmente, no dia 19 de Janeiro de 2013, ficaram disponíveis essas seis caches, mais uma, de bónus, para quem completasse a série.
Esperei pela melhor ocasião para sair à descoberta da primeira destas caches. E foi logo no dia 23. O dia estava ideal para caminhadas, o tédio atacava… montei-me na moto 4 e venci os 9 km que me separavam do ponto inicial, não do PR 12, mas do PR 10. Contudo, tudo correu mal. A sinalização do percurso é quase inexistente, e, sem o track fornecido pelo owner, que não levava comigo, só por milagre se terminaria este PR. Depois, um infeliz erro na inserção das coordenadas de um waypoint (já corrigido pelo owner) fez-me desviar do que era devido e deixou-me confuso. Acabei por abandonar o passeio quando vi que após 2 km num volteio desnecessário estava de regresso à aldeia e à estrada nacional. Boa oportunidade de me pôr a andar dali para fora.