Cruzamundos - Geopt.org - Portugal Geocaching and Adventure Portal - Geopt.org - Portugal Geocaching and Adventure Portal https://geopt.org Thu, 02 Feb 2023 08:14:26 +0000 Joomla! - Open Source Content Management en-gb Etiópia. Dia 4. Blue Nile Falls. https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4228-etiopia-dia-4-blue-nile-falls https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4228-etiopia-dia-4-blue-nile-falls Etiópia. Dia 4. Blue Nile Falls.

Este era o dia em que deixaria para trás o paraíso do Blue Nile Camping. Partimos, caminhando na companhia do anfitrião que ia à cidade. A Zuzana vem também, de ida para as Simien Mountains, um destino muito popular entre os viajantes que vêm até à Etiópia.

Na aldeia, lá estão os autocarros que fazem a ligação à cidade, a Bahr Dar. O autocarro enche mas não arranca. O Tamasgan e a Zuzana voltam a sair, deixando o lugar marcado. Vão fazer qualquer coisa. E agora surge o drama, quando a minha companhia de viagem se começa a sentir terrivelmente mal, tão mal que às tantas começo a vê-la desmaiar. Começo mas não acaba, porque recupera um pouco. Mas claramente não vai dar para seguir. Saímos do autocarro, o Tamasgan aparece com a Zuzana. Não vai dar para ir. Despedimo-nos ali dela.

O Tamasgan encontra-nos um lugar calmo para recuperar. Um quarto num lugar obscuro. Ele mais tarde diz-me que se trata de uma pensão para pessoas de passagem. A mim parecem-me quartos para… meninas. E a camisinha de vénus usada que está no pátio mesmo em frente à porta faz parte da minha inspiração para esta suspeita.

Passa-se talvez uma hora. O tipo da casa é simpático, preocupa-se com a situação. Mas o dia deve prosseguir. Lá será, mais uma noite no nosso palácio no Blue Nile Camping. Telefono ao Tamasgan e peço-lhe para regressarmos. Passado um bocado aparece, sempre atarefado, a despachar assuntos, mais um negócio aqui, um dinheiro a pagar acolá e outro a receber mais à frente.

Voltamos aos barcos e o caminho refaz-se, de volta ao Camping. Atravessamos, andamos, chegamos e lá está a cabana de lama, cama feita de fresca, confortável na sua simplicidade. É Domingo. Andam por ali visitantes vindos de Bahr Dar, alguns talvez de mais longe. Muita gente se desloca ali para ver as quedas de água, especialmente estudantes que têm este dia livre. Lá em baixo, frente às cataratas, a festa vai brava. Os jovens aproximam-se do vapor de água que resulta da queda e cantam, batem palmas, enquanto se molham, ficam a pingar.

Sento-me numa pedra com vista para tudo aquilo a ler a Visão que tinha trazido de Portugal. Converso um pouco sobre futebol com um etíope que por ali está. Um etíope que sabe mais sobre o plantel do meu Sporting do que eu. Já tinha passado por uma situação assim, digamos que vergonhosa, uma vez, na Geórgia.

Deixo o tempo passar, simplesmente. Bebo uma cerveja gelada. Ando por ali. O problema da manhã parece estar resolvido. A vida pode retomar o seu curso natural. Não vale a pena ir a lado nenhum naquele dia. Ficaremos por ali, porque não. Há comida, há animação, há boa cerveja.

Vai sendo tempo de nos lavarmos. O Tamasgan vai-nos indicar um local no rio, mais acima, um ponto tranquilo ideal para um bom banho higiénico. Manda um moço que o ajuda no campo para nos guiar. Um gaiato tímido e educado, que segue à frente, levando o nosso saco. Mais um passeio agradável que se faz a partir do Blue Nile Camping, em direcção oposta às que seguimos anteriormente.

Passamos por uma cabana tão tipicamente africana que penso que estou a ver as gravuras do meu livro de história da quarta classe tomarem vida. Aquele livro de história que me falava de um Portugal pluricontinental, de portugueses de todas as raças.

Mais à frente o nosso pequeno guia encontra um companheiro, um pastor que ali tem as suas vacas e burros, tudo misturado, como é costume por ali. Junta-se a nós durante um bocado e de repente estamos a chegar e o miúdo aponta-nos o caminho que nos leva à margem do leito do rio. É um paraíso dentro do paraíso, a água está quase morna e corre limpa. Tomamos o tal banho prometido, mudo de roupa interior, aprecio o momento, único, aqueles instantes que dão significado a uma viagem, que ficam gravados, para já, numa memória que vai ficando cada vez mais estéril.

É tempo de voltar. As cores daqueles campos estão maravilhosas, graças à luz de meio da tarde. Os castanhos são bem vivos, o azul do céu é profundo e os matos secos parecem dourados. Passamos por vários rebanhos. O pastoreio é uma actividade omnipresente na Etiópia.

Um homem jovem junta-se-nos e começa a conversar. Já imagino que terá algum plano, alguma sugestão, alguma forma de tentar lucrar com a nossa presença. É a Etiópia, é mesmo assim. Não sempre, mas quase. Desta vez afinal não. É um proprietário de gado mas tem um moço para o pastorear. Fala inglês com relativa facilidade. Ao longo de toda esta viagem fiquei diversas surpreendido com pessoas que inesperadamente, melhor ou pior, falavam comigo em inglês.

De volta ao campo. Na cabana aberta que faz as vezes de café o Tamasgan tem visitas. Ficamos ali um bocado.

O dia aproxima-se do fim e planeamos subir a colina que existe ali defronte para ver o pôr de sol. Por aquela altura já os visitantes de Domingo iniciaram o caminho de regresso e o território está desimpedido. Não há um trilho para o cume, é uma questão de se ir trepando, por onde os matos parecerem menos denso. A meia encosta a vista das quedas de água é magnífica. Mas percebo que não se ganhará nada em continuar a subir, até porque o arvoredo irá tapar boa parte do horizonte. Ficamos então por ali, sentados numa rocha, a ver o enorme sol que se retira para a noite. Como sempre andam por perto rebanhos. Um pastor pede dinheiro. Já não há sol. Vamos para baixo. Agora sim, os dias do Blue Nile Falls estão a chegar ao fim. Foram quase sempre doces. É um lugar imperdível.

O serão foi agradável. Ao fim de três dias há uma relação com o Tamasgan que não existiu no início. Já somos amigos, por assim dizer. Somos só nós os quatro, à conversa. Bebo uma aguardente a que ele chama “Dente de Leão”. É o que me apetece, que me sinto um pouco engripado. E é o fim deste tempo por ali.

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no-reply@geopt.org (Ricardo Ribeiro) Cruzamundos Wed, 15 Jan 2020 17:00:00 +0000
Etiópia. Dia 3. Blue Nile Falls. https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4221-etiopia-dia-3-blue-nile-falls https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4221-etiopia-dia-3-blue-nile-falls Etiópia. Dia 3. Blue Nile Falls.

O pequeno almoço foi servido no pequeno abrigo com vista para as quedas de água. Omelete com vegetais, um pratinho de mel com favos esmagados e um bocado de pão. Soube-me muito bem.

 

É Sábado. A rapariga eslovaca foi fazer um passeio com guia, uma actividade que tinha pensado originalmente fazer. O destino é um mosteiro perdido com nascentes de água curativa, onde os sem esperança vão em busca de alguma. Doentes terminais, dementes, pacientes com HIV. Passa-se também pela ponte portuguesa, mas essa já sei onde fica, não precisarei de guia.

Vamo-nos preparando para sair sem grandes pressas e quando estamos quase de saída o Tamasgan vem dizer que se lembrou que sendo Sábado é dia de mercado e que o veremos pouco depois de cruzarmos a ponte.

Na realidade, de certa forma, vimos o mercado mesmo antes de sairmos. O trilho que contorna a colina, que na véspera estava basicamente vazio hoje tem semelhanças com um formigueiro, um sem número de gente, boa parte dela conduzindo gado. Logo nos juntamos a este caudal humano, que se desloca com uma notável boa disposição colectiva.

Chegados a meia encosta, vimos que de outras direcções vêm carreirinhos igualmente consistentes, todos confluindo para um ponto comum: o mercado, que se vê ao longe, do lado de lá do rio. Assim à distância parece apenas um amontoado de pessoas, uma série sem fim de pequenos pontinhos.

Paramos num ponto onde se encontram as colunas e ao mesmo tempo com uma bela vista para a ponte portuguesa. Sento-me num ponto alto de onde observo tudo e poucos me vêem. Ali ficamos um bom bocado, a apreciar aquele desfilar contínuo, aquele fluir de gentes.

Quase todos seguem descalços, vestes tradicionais, um cortejo a mostrar que mesmo que difícil é ainda possível fintar a globalização, encontrar originalidade no mundo. Há-os muito novos e muito velhos. De todas as idades. E vão cruzando a ponte, dividindo-se depois em dois carreiros, aparentemente baseados apenas nas escolhas pessoais do momento.

Acabamos por voltar à caminhada e escolhemos uma das vias, e logo estamos no mercado. É uma riqueza de mercadorias, um mundo diferente, um deleite à vista. Sentamo-nos numas pedras mas não podemos ficar muito tempo porque se forma ali um círculo de meninos aborrecidos liderados por um mais atrevido que não nos dará tréguas. O problema acaba quando me levanto e digo goodbye e meto-me pelo mercado dentro.

De repente acaba aquilo e começa a aldeia. Está cheia de vida, também daquele lado as pessoas chegam e partem. Há uma fileira de autocarros que aguardam a altura de, já cheios, partirem para a cidade. Foi um bom passeio. Agora é completar o círculo, apanhar o barco tal como no primeiro dia e regressar ao camping.

O resto do dia foi de preguiça, beber umas cervejas, conversar. É fim-de-semana e muitos jovens estudantes da cidade vêm até aqui passar o dia, trazendo uma animação renovada ao camping.

Começa a chover e não há muito para fazer. Esperar. Esperar. Não se vai passar muito mais. A Zuzana volta do passeio, conta-nos as suas impressões. Negativas. Se ainda existisse alguma hesitação, quem sabe, de irmos no dia seguinte, isso ficou definitivamente arrumado.

Comida. Comida boa. E depois um serão, a escrever, a conversar e a esvaziar garrafas de cerveja.


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no-reply@geopt.org (Paulo Melo) Cruzamundos Wed, 01 Jan 2020 17:00:00 +0000
Etiópia. Dia 2. Blue Nile Falls https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4218-etiopia-dia-2-blue-nile-falls https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4218-etiopia-dia-2-blue-nile-falls Etiópia. Dia 2. Blue Nile Falls

Acordei tarde porque dormi mal. Vi mal a hora do avião para Bahr Dahr e mesmo assim o tempo era curto. O pessoal do hotel assegura o transporte por um valor razoável: 150 Birr. Bem porreiro. Pronto, mais umas travessuras ao volante para enfrentar o trânsito, uma barbaridade. Nada de super impressionante, que deixe mesmo uma pessoa arrepiada, mas é violentozinho.

Foi a chegar ao terminal que vi: o voo não é às 12 horas. É as 10:20. E são 10:35. Pronto, agora é comprar outro para mais tarde, esperando que ainda os haja, porque já tenho as coisas combinadas para esse dia.

Ah mas há milagres sim senhora. O voo estava bestialmente atrasado, e para cúmulo dos cúmulos remarcado precisamente para as 12:00. Sou ou não sou um visionário!?

Passou-se o tempo, chegou a hora e agora sim, seguiu. Uma hora de voo tranquilo, tudo bem. Chegada a um aeroporto tranquilo e pequeno, lá fora um amigo à espera com um cartaz com o meu nome. Lá nos levou para a estação de autocarros.

Agora sim, a Etiópia. Exótico. Na estação compra-se os bilhetes de fora, a pessoas que lançam os braços de dentro de janelas com grades de alvenaria. Assim que saio do táxi sou rodeado por gaiatos, mas sem problemas, só querem ver se podem vender a sua ajuda a transportar bagagem e logo se desiludem. Mas simpáticos, a indicar logo a janela correcta. Bilhete comprado, malta boa onda, sempre a perguntar o destino e a indicar o autocarro certo.

Aqui funciona o sistema de saída quando fica cheio. Demorou um bocado. Muito para observar. As pessoas vão-se acomodando. Agora está repleto, mas há sempre os preparativos, bagagem para o tejadilho as discussões mais ou menos acaloradas cuja língua, indecifrável, cobre com um manto de mistério. E pronto, lá fomos.

São poucos quilómetros. Talvez uns trinta. Mas a estrada de terra batida é um campo de lavra e eu, parvo, sabendo o que sei, fui-me sentar sobre a roda, o pior lugar de todos para uma massagem destruidora de coluna. O meu pensamento flui para o o Panamá e de como um tratamento destes me deixou maltratado durante semanas numa fabulosa viagem de Portobelo para Colón.

Muito interessante todo o caminho, feito daquele fascínio por vidas diferentes. E logo no início da viagem, quando domina aquele ponto de interrogação, e só foi pena que com os buracos não pudesse recolher umas imagens. Terão que ficar nesta muito falível memória.

À chegada a Tiss Abay, também conhecida como Tississat, fiquei um bocado chateado: era suposto o tipo do sítio onde ia ficar ir-me esperar, ou pelo menos mandar alguém, mas afinal o que tive que fazer foi pagar algum a um conhecido dele que ainda por cima ficou chateado com a quantia, que era exactamente a que o hospedeiro me disse para dar.

Mas valeu a pena. O lugar é o paraíso. Estou mesmo ao lado das cataratas do Nilo Azul. O barulho está lá, mas não é ensurdecedor, dorme-se bem, e com tampões de ouvido então não se ouve nada. Mas já lá vamos…

Tenho uma cabana de lama para mim, e o local é uma maravilha. Está-se bem. Há turistas, vejo-os subir a encosta do outro lado do canyon. É tempo de relaxar. Há pássaros que é uma coisa louca. Para observar, de tantos tamanhos e cores garridas.

A queda, propriamente dita, é mesmo aqui por detrás. Acho que faz parte da propriedade do local onde estou. Blue Nile Camping. O camping é possível mas para já é mais cabanas e só está cá uma moça eslovaca.

Começa a chover. Estou dentro da cabana a ouvir a chuva a cair. Pouco depois pára. O dia está a chegar ao fim. Tenho uma hora antes de cair a noite. Um passeio bom. O local é lindo, há que atravessar uma ponte suspensa, passo por um pastor que toca flauta enquanto faz companhia às suas seis vacas e me sorri.

Vejo a cascata de vários ângulos, a luz está magnífica. Ainda queria chegar à ponte portuguesa que neste meio de nenhures foi construída pelo nosso povo no início do século XVII a pedido da autoridade local. Mas a escuridão estava a chegar e o retorno foi forçado por esta circunstância. Foi contudo um passeio que me lavou o espírito.

No “acampamento” jantei e gostei. Um serão agradável, com boa conversa.

 

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no-reply@geopt.org (PauloMelo) Cruzamundos Wed, 25 Dec 2019 17:00:00 +0000
Etiópia. Dia 1. Addis Abeba. https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4214-etiopia-dia-1-addis-abeba https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4214-etiopia-dia-1-addis-abeba Etiópia. Dia 1. Addis Abeba.

O dia até começou bem, muito bem, tão bem que nem imaginava que ia descer depois tão baixo. Calma. Não aconteceu nada de mal, assim, abertamente mal, mas…

Bem, mas voltando ao início. O voo foi bom. Como ia quase vazio toda a gente encontrou uma série de assentos vazios que foram transformados em cama e eu fiz o mesmo, dormindo assim umas três horas, que foi um luxo.

Aterrar também foi bom, tão bom que digo já: nunca vi uma coisa assim, o comandante colocou o avião no chão sem que desse por isso. E não estou a exagerar. Não é figurativo. Parece milagre, se calhar foi. Estávamos a perder altitude, normal, quase a tocar a pista, quase a tocar a pista e já não era possível estar ainda quase a tocar a pista, o avião rolava mesmo. Uma coisa fabulosa.

Depois continuaram as coisas boas. Após a melhor aterragem da minha vida – e nem vou dizer “até agora” porque é simplesmente imbatível – seguiu-se o aeroporto mais amigável, agora sim, até agora. Uma coisa louca. Uma pessoa vai pelos corredores e se hesita numa viragem logo um funcionário simpático aponta a direcção certa. E depois vem o controle de passaportes. Nem uma pessoa à espera. Chegar e ser atendido. E de que forma! A rapaziada da polícia de fronteira parecia mais estar numa festa de reggae. Boa disposição e descontracção. A melhor aproximação que tinha tido a isto foi na Síria.

Depois troquei dinheiro, também muito boa onda, câmbio certinho, gente simpática. E depois começaram os pequenos problemas. Devia usar a Internet para avisar que já tinha chegado. Mas a Internet do aeroporto não funcionava como devia. Mais simpatia: as senhoras do escritório fazem o telefonema para mim.

A caminho do hotelzinho. Trânsito caótico, noite mal dormida. A má disposição chega. Nada de especial no hotel. Nem bom nem mau, mas é longe, isolado e para piorar, começa a chover. O cenário estava a ficar negro para o meu estado de espírito. Nem a soneca tirada logo à chegada tinha ajudado muito.

Antes da chegada da noite um pequeno passeio. A ideia era comprar um cartão para o telemóvel. Mas não houve sucesso. Só piorou o meu estado de espírito. O bairro é a puxar para o depressivo. Ou será a cidade?

Dormir foi complicado. Por uma simples razão: altitude. Adis Abbeba está a 2.400 m e acabado de chegar não consigo respirar bem quando estou a dormir. Tenho esta chatice, o meu corpo não lida nada bem com altitude. Acima dos 2.000 m já sei que vou ter problemas respiratórios. Nada de grave, mas acontece. Caminhar, especialmente a subir, faz-me respirar mais depressa. E mesmo a dormir, acordo algumas vezes ofegante, a necessitar de inspirar profundamente.

 

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no-reply@geopt.org (PauloMelo) Cruzamundos Wed, 11 Dec 2019 17:00:00 +0000
Etiópia. Dia 0 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4212-etiopia-dia-0 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4212-etiopia-dia-0 Etiópia. Dia 0

Esta viagem à Etiópia não nasceu de um grande amor. Foi mais, pode-se assim dizer, filha bastarda de uma noite ocasional, uma noite de Abril em que se me insinuou uma promoção da Ethiopian Airlines. Por 295 Euros, com uma conveniente partida de Madrid não deu para resistir. Avancei. E depois foi esperar sem grande entusiasmo até meados de Novembro.

Porquê a falta do palpitar mágico que as viagens inspiram em todos nós, que gostamos de palmilhar o mundo? Não sei. Este país africano nunca penetrou fundo no meu imaginário. E pela negativa jogavam vários factores: a religiosidade profunda, a atitude perante os estrangeiros que vêm visitar, a enorme distância entre os principais pontos de interesse e, de forma geral, a falta de apelo em mim desses elementos, tão atraentes para muitos.

Mas aqui vou, precisamente um ano depois de partir à descoberta da Guiné-Bissau, Gâmbia e Senegal, essa sim, uma bela viagem que tinha criado expectativas nunca desiludidas. E foi assim, a ver esta memória do dia 14 de Novembro de 2017, que me sentei à espera num banco de Barajas com vista para a placa.

No dia de trânsito correu tudo bem. Uma ligeira viagem de comboio de Faro ao Oriente, um almoço agradável no shopping, pequenas compras feitas, a ida para a Portela (desculpem lá, coisa de velho, para mim será sempre o Aeroporto da Portela) sob um lindíssimo céu azul de Outono.~

Num dia assim, até a Portela tem mais encanto. Será só impressão minha… ? Nas máquinas de compra de bilhetes para o Metro não há a multidão que aguarda numa fila sem vergonha, como me habituei a ver sempre ali. O pessoal da Prosegur até parece que está simpático, não há tempos de espera para nada e tudo corre às mil maravilhas.

O voo da Easy Jet para Madrid descola à hora de tabela e Barajas está como a Portela, melhor que nunca. Sem multidões, com um espaço agradável para ver o tempo correr até à hora de encontrar a porta  de embarque que servirá o avião da Ethiopian Airlines. Com internet sem problemas, tomada para manter o equipamento à carga. Uma maravilha.

E o segundo embarque do dia corre como o primeiro. À hora, com muita tranquilidade, depois de passar pelo controle de passaportes mas não por qualquer vistoria de segurança, o que me causa alguma confusão… então ninguém quer inspeccionar a bagagem, e logo em Madrid?

O voo da Ethiopian é excelente. Muito calmo. Uma viagem nocturna, com um bom centro de entertainment, uma refeição que veio mesmo a calhar. Espaço entre cadeiras bem arejado e como o avião vinha pouco cheio quem quis ainda se deitou em linhas de cadeiras vazias.

Dizem que a Ethiopian é uma companhia caótica, mas suspeito que são impressões adquiridas nos voos domésticos, que à data em que escrevo estas linhas não experimentei ainda. Até agora tudo bem. É verdade que o suporte, é esforçado e em tempo real através de chat, mas confuso e pouco esclarecido. Que se dane, está lá, presente. Isso é bom.

Já agora, uma palavra sobre vistos para a Etiópia. São obtidos online, no website oficial para a emissão de e-Vistos. Custam cerca de 50 Euros e são emitidos numa questão de minutos. Mas se as coisas correrem mal podem correr muito mal. E digo isto pela pequena amostra que tive: não recebi o recibo prometido logo após a submissão do pedido. E sabem o que me disseram do suporte dos vistos electrónicos? Que não havia traços no sistema do meu pedido e do meu pagamento, logo, eu não o teria pedido e muito menos pago. Mau. Comecei a ver aquilo mal parado, e estava a pensar na vida quando chega ao e-mail, não o recibo, com algum atraso, mas já com o visto definitivo. Sim senhora.

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no-reply@geopt.org (Ricardo Ribeiro) Cruzamundos Wed, 04 Dec 2019 17:00:00 +0000
Argélia 2018 – Dia 9 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4209-argelia-2018-dia-9 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4209-argelia-2018-dia-9 Argélia 2018 – Dia 9

Acordar pela última vez na Argélia. O arquitecto já não está em casa. Sossego. O barulho da rua mal chega aqui acima. Está um dia lindo, adequado para uma despedida. Apreciamos a calmaria, fazemos um pouco de preguiça. O Ferry, o amigo alemão que conhecemos em Constantine, chegará de comboio a Argel ainda de manhã e o “nosso” apartamento fica em frente à estação de comboios, por isso nada mais natural do que nos encontrarmos.

Aguardo que me envie uma mensagem. Irá chegar por volta das 10:15 e quando o comboio se detém saio para a rua para o receber. Deixará a bagagem no nosso quarto em Argel enquanto exploramos a cidade juntos. Já me sinto um veterano, posso mostrar a bonita Argel e passar os conhecimentos que o Abdou me transmitiu.

Vamos por aí a pé. A baixa da cidade e o Kasbah baixo, mas o labirinto deixo para o Ferry percorrer no dia seguinte, quando estiver a caminho de Andorra. Adoro estas ruas da cidade e não me canso de as percorrer. Vamos revendo os locais que já conhecíamos. Mostro ao Ferry onde trocar dinheiro com uma boa taxa de câmbio, passamos pelo edifício do Grand Poste, pela Place Emir Abdelkader que já tem perfume a lar para mim, e depois em frente à rua do Abdou.

Chegamos ao baixo kasbah e à Place des Martys, onde mostro ao Ferry os vestígios romanos e a estação de metro. Dali seguimos por território virgem, por um bairro que o Abdou nos tinha mostrado ao longe e recomendado para uma outra ocasião. Definiu-o como um bairro proletário francês, ou seja, a zona que na época colonial era ocupado pelos sectores mais baixos dos favorecidos franceses.

E acreditem que ainda hoje se percebe essa diferença! Há uma alteração no ambiente e na arquitectura em relação ao sector mais nobre da cidade. É muito interessante e sinto-me feliz por ter a oportunidade de vir aqui espreitar antes de deixar a Argélia. Cheio de vida, detalhes do quotidiano, um charme decadente que certamente não servirá de muito aos habitantes mas que para mim é delicioso.

Há lojas tradicionais. E um liceu com muita juventude e uns murais em mosaico que já foram muito bonitos e hoje estão um pouco obscurecidos. Continuamos a caminhar até darmos com a praia de R’Mila e uma vista deslumbrante. No topo das colinas, ao longe, vejo o destino que procuramos alcançar, a Catedral de Nossa Senhora de África, conhecida popularmente por aqui como “Madame Afrique”.

E agora,  como subir… no Google Maps tudo parece simples, mas no terreno as coisas podem ser complicadas, especialmente por causa da morfologia do terreno. Liderando, de GPS na mão, escolho uma rua, mas logo percebo que não será viável: passado um bocado segue uma direcção claramente oposta. Voltamos para trás. E que tal apanhar um transporte para cima? Suspeito que foi deste local que o Abdou disse que partiam umas carrinhas lá para cima. Perguntamos. As pessoas indicam-nos uma paragem mais à frente. Chegamos lá, perguntamos de novo e dizem para entrarmos já na carrinha que ali está prestes a arrancar.

Que sorte. Uma subida confortável – até porque o calor começava a apertar – a preço baixo e direitinha até à catedral. Como bónus esta carícia no dia a dia das gentes, este partilhar de espaço com os argelinos que por ali vivem e que vão para casa.

A viatura sobe pelas ruas íngremes. Vai deixando passageiros. Sigo sentado bem no meio e é minha função passar o dinheiro dos passageiros de trás para o cobrador, à frente. E eventualmente devolver trocos. A subida não é demorada e logo percebemos que a nossa paragem chegou. Se não soubéssemos, logo os nossos companheiros de viagem nos fizeram sinal que era ali que queríamos ir.

A catedral está mesmo ali à nossa frente e é linda! Não só o templo, mas toda a envolvência. O amplo espaço fronteiro, de onde se tem uma vista linda, as pessoas que ali usufruem de toda aquela quietude, o céu que hoje está azul profundo. Momento grande!

Andamos por ali às voltas, fascinados, e entramos na igreja que ainda está aberta (fecharia para almoço cinco minutos depois). O interior é um pouco decepcionante. Não há elementos decorativos à altura do imponente exterior do edifício. Algumas pessoas ouvem explicações dadas por um guia. Não se pode tirar fotografias, o sinal está por todo o lado… mas eles tiram.

Cá fora o Ferry faz amizade com umas jovens vestidas de forma conservadora que falam inglês. Mais uns longos minutos de deleite antes de considerar a partida de um lugar tão bonito. Aconselho muito, caso venha a Argel. Não é dos locais mais acessíveis mas vale a pena. Se for caso disso, que se apanhe um táxi.

Entretanto coloca-se outra questão: como chegar ao cemitério, que no mapa parecia contígua à catedral, mas que agora vejo lá em baixo, bem distante, ao nível do mar? As amigas novas do Ferry não sabem. Ah! Mas sabe o polícia mal encarado mas muito simpático. Pode-se ir de carrinha, para baixo, como se veio, ou então usando um trilho que passa ao lado do recinto da catedral e vai descendo a colina.

E é isso que se faz. Está calor mas a descer todos os santos ajudam, como se dizia antigamente. Passamos por alguns locais que andam nas suas vidas e ficam um pouco espantados com os estrangeiros que por ali se aventuram. O trilho acaba por terminar numa rua. A orientação é relativamente fácil: é sempre a descer. Só num ponto é que as coisas se complicam, mas uma consulta a um grupo de jovens que ali está esclarece o rumo a tomar.

Atingimos a via principal que corre paralela ao mar. Vimos uma carrinha Volkswagen, a chamada “pão-de-forma”, pintada de forma criativa. Passamos frente ao estádio e segundo as indicações o cemitério já não deve estar longe.

Parece estar fechado. Ah mas afinal está aberto. Um argelino pergunta-nos ao que vamos. Só dar uma vista de olhos. OK, procuramos algum túmulo em particular? Não, vamos só visitar o cemitério de forma geral. OK, se precisarmos aquele tipo ali – e aponta-nos outro que nos diz adeus de uma certa distância – é o guia oficial do cemitério. Talvez seja. Bem, mas vamos entrando.

Honestamente não é o cemitério mais espectacular que já vi. Falta-lhe aquele toque de túmulos-arte que se encontram noutros locais. Mas havia alguns detalhes interessantes e algumas campas notáveis, como o da família real de Madagáscar.

Demos umas voltas por ali, e mais tempo ficaria se não começasse a ficar apertado para ainda irmos comer… claro, ao “sírio”, e ver mais qualquer coisinha.

Caminhámos de volta à Place des Martyrs, e o retorno foi quase tão agradável como a ida. Havia mais trânsito, alguma poluição. Parámos para comprar umas bananas para aguentar o estômago. E chegámos ao metro. Felizmente que existe uma estação mesmo em frente ao L’Arabesque. Mais uma viagem agradável no metro de Argel e num instante estamos a comer aquelas iguarias do Médio Oriente.

Agora o Ferry vai buscar a bagagem ao apartamento e despedimo-nos. A tarde vai avançada, em menos de nada estará na hora de iniciar a viagem até ao aeroporto. Mas o dia ainda dará para mais qualquer coisa. Não para tudo o que queríamos, mas para algo.

Havia que escolher a a primeira opção foi passar algum tempo numa esplanada frente ao Grande Poste. Poderá parecer uma perda de tempo precioso mas era mesmo o que apetecia: relaxar um pouco e praticar a complicada arte de observar pessoas. E tanto para observar que ali havia! Contudo, primeiro, era necessário encontrar uma mesa livre, que não havia. Esperamos um pouco, umas pessoas levantam-se e… um argelino dirige-se para lá ao mesmo tempo que nós.

Gentil, percebe a situação e cede-nos a mesa. Fica à espera. Está agitado. Olha para o telemóvel. Decididamente aguarda a chegada de alguém. Vai ao interior do estabelecimento, e nesse momento outra mesa vaga. Quando regressa ainda está livre, faço-lhe sinal, ele aproveita.

Pede uma bebida, um café com leite, creio. Mantém-se agitado. Levanta-se, afasta-se, deixando a bebida intocada na mesa. Um grupo de homens chega, vê a mesa assim, senta-se. Conversam, bebem os seus chás, estão ali um bom bocado. Levantam-se, vão-se embora. Como por milagre o galão do outro mantém-se no mesmo lugar. E nisto o nosso amigo regressa acompanhado por um senhor mais velho, talvez o pai, e senta-se na “sua” mesa. Como se nada tivesse acontecido entretanto, como se o tempo tivesse ficado congelado, só para si, para a “sua” mesa, para o seu galão.

Vamos dar um último passeio. É mesmo o fim da tarde. O céu ganha as cores de pôr-de-sol. Seguimos até à Place des Martyrs, passamos junto às mesquitas, chegamos à beira do mar, da base naval, do porto de pesca. E pelo grande Boulevard. Vimos os pobres que aguardam a refeição gratuita. Mais à frente um grupo de três homens mete conversa e pede uma fotografia.

Chegamos a casa. O inglês está lá. É tempo de pegar nas mochilas, dizer-lhe adeus e partir. Vou usar aquela espécie de Uber argelina pela primeira vez. As opções seriam o autocarro ou um táxi normal. Mas corre tudo bem. Passado pouco tempo um rapaz muito jovem chega com um carro já um pouco velho e leva-nos para o aeroporto. Uma viagem serena.

Preparar para passar a noite no terminal. Há uma cafetaria com mesas e sofás confortáveis que está fechada mas onde dá para ficar. E nisto uma surpresa: descubro que o Patrick Marques, um velho contacto meu de Facebook, grande viajante e especialista na Argélia, está na cidade. E num instante combinamos e vem-nos visitar! Ficamos umas horas à conversa, mas chega a um ponto em que tenho mesmo que dormir. Até porque o dia seguinte será longo. Uns 200 km a conduzir de Barcelona a Andorra.

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no-reply@geopt.org (Ricardo Ribeiro) Cruzamundos Wed, 27 Nov 2019 17:00:00 +0000
Argélia 2018 – Dia 8 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4207-argelia-2018-dia-8 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4207-argelia-2018-dia-8 Argélia 2018 – Dia 8

À hora agendada toca o despertador e não é agradável. Lá fora ainda é de noite. A mochila estava pronta de véspera, saímos rapidamente para a rua. É preciso comer qualquer coisa, pergunto ao Bilel se há algum local onde se possam comprar uns croissants. Não no habitual lugar dele, esse abrirá mais tarde, mas leva-me a um sitio que aquela hora em que o dia começa a clarear está cheio à pinha de homens que tomam o pequeno-almoço.

Desenvencilho-me com a barreira linguística e compro uma sacada de croissants para comer imediatamente mas também para a viagem que se adivinha longa. Regresso ao carro e logo estamos na estação ferroviária.

Bilhetes comprados com a ajuda do Bilel. Não foi caro. A viagem deverá demorar umas seis horas mas já se sabe que nunca acontece. Serão mais, quanto mais é que é a incógnita.

A composição já acorda na plataforma. Vagão de primeira classe, sem lugares marcados. Escolhemos um, mas como está vazio logo nos estamos a expandir para outras opções. Os assentos têm tomada eléctrica mas não funciona. Em nenhum deles. Apenas uma saída de baixa amperagem pode alimentar o telemóvel.

À hora certa o comboio parte. Anda muito devagar. Mais para a frente o ritmo melhorará mas para já o andamento é lento. Irá parar pouco, ao longo da viagem, considerando a extensão do percurso. A paisagem é relativamente monótona. Campos tipicamente mediterrânicos e por vezes cidades e montanhas que se avistam ao longe. Devo confessar que foi uma certa decepção. Costumo observar atentamente, horas a fio se for caso disso, as paisagens que me são mostradas pelas janelas de autocarros e comboios. Mas aqui rapidamente me aborreci e me deixei ir para outras actividades.

A coisa mais animada das oito horas e tal que estive no comboio foram as discussões. Uma mulher mais velha sentada lá para a frente arranjou problemas com muita gente, e quase batia nos revisores.

O comboio foi enchendo. Uma segunda vaga de revisores fez uma série de passageiros mudar-se para a segunda classe. A mulher, mais uma vez, armou uma peixarada e ninguém  conseguiu mover.

Os mantimentos foram suficientes para me manter de estômago composto, mas em princípio, se tivesse surgido a necessidade, havia um café-restaurante na composição.

Passamos por uma área onde parece que existe actividade, ou pelo menos presença, de fundamentalistas islâmicos e onde se recomenda alguma cautela a viajantes ocidentais.

Já nos aproximamos de Argel, nota-se a densidade demográfica a intensificar-se.

Chegamos. A meio da tarde. Tinha reservado um quarto num apartamento AirBnB e… é literalmente do outro lado da rua da estação. A localização não podia ser melhor, mesmo para gastar mais algum tempo a passear pela interessante capital argelina.

O proprietário, um arquitecto inglês que trabalha no país há muitos anos, não estava, mas deixou a chave debaixo da porta. Adorei ali ficar, apesar das primeiras impressões não terem sido muito boas. Era um edifício tipicamente colonial com uma lindíssima varanda sobre a rua… e como era o último andar, via-se muita coisa.

O tempo estava excelente, céu predominantemente azul, boas temperaturas. Saímos para comer, pois claro, no sírio. E para passear, rever locais já conhecidos e que já deixavam saudades.

Estivemos com o Abdou ao serão, uma visita em sua casa, que desejaria curta porque estava cansado mas que se alongou com muita conversa. Quando regressámos o inglês não estava em casa mas tinha-a limpado de forma imaculada e a minha impressão do alojamento melhorou muito. Dormi bem! Última noite na Argélia.


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no-reply@geopt.org (PauloMelo) Cruzamundos Wed, 20 Nov 2019 17:00:00 +0000
Argélia 2018 – Dia 7 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4206-argelia-2018-dia-7 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4206-argelia-2018-dia-7 Argélia 2018 – Dia 7

O dia começou cedo, com o pequeno-almoço com o nosso anfitrião e a filha. O desgraçado acordou de madrugada para levar o Ferry, o couchsurfer alemão, ao comboio. E sabem o pior? No dia seguinte terá que repetir a operação connosco.

Depois o Bilel deu-nos boleia até à paragem de eléctricos. É apenas uma linha, mas muito funcional. Estão sempre a passar, o bilhete é económico e põe-nos no centro num instante. Está-se bem em Constantine.

Saímos junto ao centro e seguimos o fluxo de pessoas que certamente nos mostrará o caminho certo. Há muita gente na rua, é o início de um novo dia e a população de Constantine vai para o trabalho. Ou não. É fim-de-semana e talvez vão mais às compras, ou conviver.

Descobrimos o local que o Bilel indicou como sendo o acesso à parte mais antiga da cidade. Há uma multidão à porta. O calor aperta e sinto-me um pouco sem plano para explorar a cidade. Estou perdido, desnorteado, sem rumo. Achei Constantine uma cidade de navegação complicada para quem não a conhece.

Outra sua característica é o aspecto arejado: existem campos verdes por todo o lado e apesar de viverem na cidade meio milhão de pessoas, onde quer que se vá vê-se o campo. Mesmo do centro.

O dia está bonito e o verde que rodeia Constantine sobressai. Anda-se por ali. Vejo uma estrada pedonal que desce uma colina, serpenteando, e por ela estão distribuídos vendedores. É uma espécie de Feira da Ladra. Vem a subir um senhor com a pequena filha que posa para uma fotografia. Atrás de mim um vendedor desata a mandar ao solo uma peça da sua mercadora. Furiosamente. Será por causa das fotografias?  O pai da menina discute com ele por causa da atitude, mas nunca saberei o que aconteceu ali.

Andamos por ali, um bocado à toa, andando, simplesmente andando, e quando é assim, claro, vê-se muita coisa, mas nada que se registe por escrito. É a vida de Constantine que se observa.

Encontramos o Palácio do Bey, de que o Abdou já tinha falado. Hoje em dia é uma espécie de museu, mas o seu valor para o visitante é mesmo enquanto palácio, enquanto testemunho arquitectónico, e é mesmo imperdível, dando para passar pelo menos uma hora explorando os seus jardins, arcadas e salas.

Fomos ao Monumento aos Mortos da Grande Guerra, lá no alto, chegando depois de atravessar uma das pontes suspensas mais impressionantes de Constantine. Há muita gente por ali, especialmente juventude mas também famílias. O dia está quente e o céu totalmente azul. Depois da tempestade da véspera é uma mudança significativa!

Dali têm-se grandes vistas e fico por lá um pouco a descansar e a observar. Depois, sem pressa, atravessar de novo a ponte, absorver o ambiente.

A tarde vai avançando. Alguma fome. Gostava de encontrar o restaurante que tínhamos visto na véspera,  todo pintas, sobre a primeira ponte suspensa que tinha visto. Andei às voltas, olhei e voltei a olhar para o GPS e não se fez luz.

Felizmente o Bilel mandou-me a indicação do local no Google Maps via Whatsapp e a coisa lá encarrilou. Foi uma boa refeição. O meu bife de peru com natas não era nada de fabuloso mas também não estava mau, o ambiente era óptimo e as vistas melhores ainda. Quanto ao preço, os habituais valores muito agradáveis. Deu para descansar as pernas e satisfazer o estômago.

Agora mais uma volta, um bocado disparatada, e depois de um grande círculo estava outra vez a passar frente ao restaurante. Que tótó. Entretanto tinha começado a ouvir as primeiras apitadelas e intuí logo o que se passava: aquilo eram festejos de futebol.

Já em frente ao restaurante avisto uma enorme faixa verde… mais um sinal. Antes, ao passar sobre uma ponte relativamente modesta, tinha visto uma outra faixa da mesma cor a balouçar ao vento.

Agora estamos numa rua cheia de gente, com muito comércio, e os carros que passam já não deixam margem para dúvidas. Sem me dizerem parece-me evidente que o Constantine ganhou o campeonato.

O que se seguiu foi uma maravilha, um deslumbramento, um daqueles momentos que dá significado às viagens. A multidão juntava-se numa praça principal, e para lá acorria toda a gente. Um espectáculo de alegria. Carros carregados de gente, e de repente todo o povo não só se deixava fotografar como queria ser fotografado naquela data querida.

Depois de um bom bocado a fotografar e a sentir o ambiente começámos a fazer o caminho em direcção ao eléctrico, mas antes de lá chegar ainda muito haveria de fotografar. Toda a gente me pedia um retrato. Uma loucura!

O Bilel foi-nos esperar ao eléctrico. Vinha cansado mas tinha passado um dia fabuloso. Parámos numa mercearia porque era necessário comprar abastecimentos para a longa viagem de comboio do dia seguinte e foi um momento engraçado porque quando fui para pagar o dono percebeu que eu era estrangeiro e para minha surpresa começou a falar comigo em bom inglês e ainda se esteve ali um bocado à conversa.

Jantámos juntos mas o serão foi curto porque no dia seguinte havia que sair ainda de noite para apanhar o comboio para Argel.

 

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no-reply@geopt.org (Ricardo Ribeiro) Cruzamundos Wed, 13 Nov 2019 17:00:00 +0000
Argélia 2018 – Dia 6 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4196-argelia-2018-dia-6 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4196-argelia-2018-dia-6 Argélia 2018 – Dia 6

Foi preciso acordar muito cedo, ainda de noite. O pobre do Abdou, claro, tinha-se prontificado a assegurar o transporte para o aeroporto e apareceu lá em casa num estado que metia pena. Enquanto saíamos e não saíamos adormeceu no sofá.

Bem, lá fomos, a despedida, com um abraço sentido e mais uma vez um voo à hora e sem problemas com a Air Algeria que nos deixou no terminal doméstico de Argel com algum tempo para gastar até à ligação para Constantine.

Estes voos foram uma benção. São muito baratos, a rondar os 25 Euros, e poupam imensas horas na estrada ou na ferrovia, horas que numa viagem curta como esta são preciosas.

O terminal doméstico é agradável, com lojas diversas e um café na pequena área junto às portas de embarque. Passou-se bem o tempo e logo se estava a voar para Constantine, de novo, e pela terceira vez, um voo a cumprir horários mas com um pequeno problema: como fui dos últimos passageiros a entrar não encontrei lugar para a mochila e mandaram-na lá para baixo, com todos os bens preciosos… stress… não sei como é na Argélia, mas numa situação assim noutros países é certo que resulta em roubo.

Vou o voo todo a recriminar-me por me ter deixado levar assim, porque na altura deram a entender que a iam arrumar no fundo da cabine e afinal, foi lá para baixo… bem, não houve crise… aterrámos, fui para o terminal e lá veio a minha mochila. Já eu estava na companhia do próximo anfitrião, o Bilal. Pois é, os aeroportos na Argélia são um bocado liberais… ele já tinha entrado para a área da recepção de bagagens, com a pequena filha dele.

Estava lá tudo. Os 300 Euros em dinheiro, a Nikon e o computador. Menos mal. Vamos então no carro dele. Primeiro deixaremos a menina na aula de natação e depois teremos direito a uma visita guiada, sumária e motorizada, pela periferia de Constantine, ficando o centro para o dia seguinte.

Infelizmente, ou talvez não, algo correu mal: após aterrarmos na cidade numa encantadora tarde de Primavera plena de sol, caiu subitamente uma tempestade sobre Constantine, e a chuva que se precipitava sobre o carro era verdadeiramente apocalíptica.

Então este périplo fez-se com saídas fugazes do carro entre picos de tempestade, o que não foi muito conveniente para ver as vistas mas trouxe um ambiente de aventura e de experiência única para o passeio.

Fomos vendo as famosas pontes de Constantine e o desfiladeiro que cerca a cidade e que faria dela um formidável desafio para qualquer exército que a ousasse atacar. Havia também que recolher outro couchsurfer que estava a ficar com o Bilal, um alemão, de quem não gostei muito no primeiro contacto mas que no fim ficou meu amigo e se revelou um tipo bem porreiro com quem partilharia vários momentos de viagem.

Entre saraivadas de chuva e períodos de chuvisco lá fomos vendo umas coisas, o Bilal a dar-nos noções básicas da geografia da cidade, indicado locais e vias para a visita do dia seguinte.

Lá parámos o carro, o Bilal foi à procura do alemão, coitado, sob pesada chuva, e passado um bocado regressaram os dois ao carro. Agora iríamos recolher e pequenita da aula de natação e depois visitaríamos a mesquita grande de Constantine.

Entretanto a noite ia chegando e quando entrámos no recinto da mesquita já as luzes se acendiam. Estava um ambiente fantástico. A chuva tinha limpo a atmosfera e agora que tinha parado as nuvens criavam fantasias brancas lá em cima, enquanto que o amarelo das lâmpadas que envolviam o templo criavam um contraste de temperatura de cor muito curioso.

Entrámos na mesquita. Na Argélia, e ao contrário do que sucede em alguns países muçulmanos como Marrocos, todos são bem-vindos ao interior das mesquitas, sem distinção de religião. É um amplo espaço, muito sossegado aquela hora. Algumas pessoas encontram-se em reflexão no seu interior.

Já cá fora, tirei umas dezenas de fotografias. A luz estava perfeita e o edifício revelava-se fotogénico. Criou-se um daqueles momentos em que não consigo parar de clickar. Foto! Foto! Foto!

Bem, por fim metemo-nos no carro. Iríamos para casa e na realidade já era quase de noite. A caminho fizemos uma paragem para observar o pôr-de-sol. Estava fantástico, com o céu já a limpar e o laranja daquela última luz do dia a ser muito forte, vendo-se os minaretes da grande mesquita, lá ao longe, recortados contra o céu.

Chegámos a casa. Um apartamento novo, muito limpo, localizado numa urbanização nova nos subúrbios de Constantine. Passámos o serão a conversa, o Bilal ofereceu-nos jantar, foi muito agradável. Com aquela coisa cultural de ser estranho a mulher dele não tomar a refeição connosco.

 

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no-reply@geopt.org (Ricardo Ribeiro) Cruzamundos Wed, 23 Oct 2019 17:00:00 +0100
Argélia 2018 – Dia 5 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4193-argelia-2018-dia-5 https://geopt.org/index.php/artigos/outros-artigos/cruzamundos/item/4193-argelia-2018-dia-5 Argélia 2018 – Dia 5

Segundo e último dia completo em Ghardaia. E a começar tal e qual como o anterior, com o Abdou a chegar cedo de mais e a forçar um despertar em acelerado para o pequeno-almoço.

De manhã íamos visitar Eteouf. Mais uma vez aquele caminho até ao eixo rodoviário principal, um verdadeiro caminho das Arábias que me fascinou e nunca cansou, mesmo depois de ter passado por ele mais de dez vezes.

Em Eteouf, a manobra do costume: parquear e posto de turismo. À entrada da cidadela encontramos um dos homens da associação. Pensava que seria o nosso guia mas depois de transpormos o portão e entrarmos de facto no núcleo histórico entramos no tal posto e aí vejo um homem de muita idade que lê um livro que mantém a uns cinco centímetros dos olhos.

Conversamos um pouco, apresentações e essas coisas básica e pronto, está na hora de irmos à visita. O homem que encontrámos lá fora indica ao que estava a ler que seria ele a vir connosco e esse outro faz um ar surpreendido, como quem diz “ah sou eu!?” e seguimos lá para fora.

O tipo é um figurão. De robe branco, sempre com o capuz colocado, fala de forma dramática, com muitas exclamações, como se estivesse sempre irado, quando na realidade não o está nunca. Semicerra um dos olhos enquanto fala, o que acentua ainda  mais o seu carácter.

Começamos pela praça principal, que nestas cidades se encontra junto à entrada, no nível mais baixo de localidades que sobem colina acima, com a mesquita no topo. Seguimos por um emaranhado de ruas. É uma visita rápida, a mais rápida das três guiadas que fizemos.

O guia fala inglês. Viveu na Alemanha, foi mecânico de aeronaves, deve ter tido uma vida plena, e agora está de volta, a este encantador fim de mundo. Conta-nos a história de Cristiano Ronaldo, sem revelar que é dele que está a falar até chegar ao fim, e foi engraçado porque de facto não entendi até ele dizer, apesar de conhecer o seu percurso.

Devo dizer que das quatro visitas às aldeias históricas do vale esta foi a que gostei menos. A personalidade do guia mexeu um pouco com a experiência. Não é que fosse mau, mas os outros eram melhores. E foi tudo muito depressa… vai acima, vai abaixo, e está acabado. Basicamente caminhámos desde a praça até à zona da mesquita e depois para baixo, só com uma paragem.

Dali fomos até um ponto alto, onde tínhamos estado na véspera, mas onde é preciso ir de manhã para melhor se aproveitar o potencial fotográfico. Tem a ver com a posição do sol, que não pode estar por detrás. Dali se avista toda a cidade, e é uma visão maravilhosa. Ao pôr-de-sol também, mas por essa hora apenas os nossos olhos conseguem lidar com a luz, a câmara nem por isso.

A seguir fomos a casa. De caminho o Abdou lembrou-se de algo, daquelas coisas que ele faz sem parar, matutar como entreter melhor e oferecer os melhores momentos aos seus convidados. De facto ficar com este tipo foi uma imensa mais valia para a experiência de visitar Ghardaia.

Portanto, dizia eu, parou o carro, disse para esperarmos, desapareceu para voltar a reaparecer e dizer que tinha uma coisa que podia ser interessante para vermos. E a coisa interessante era um curral de cabras cheio de animais simpáticos e curiosos. O dono trabalhava ali sozinho. Tratava de tudo. As tarefas eram tantas que nem tinha tempo para fazer queijo. Só tirar o leite e tratar das cabrinhas.

Depois desta paragem, digamos, fora de comum, fomos almoçar. O Abdou tinha encomendado um prato especial, feito apenas para nós em casa e servido na mesa de uma pastelaria que coisas deliciosas. Mais uma refeição fabulosa, depois de uma longa e muito justificada espera. É o preço a pagar pela comida de qualidade, verdadeiramente caseira.

Enquanto esperávamos íamos bebendo copos de uma deliciosa bebida refrescante feita a partir de uma selecção de ervas. Por fim veio. Uma coisa fabulosa, uma espécie de lasanha, se precisar de comparar com algo conhecido. Ou de duas pizzas muito finas com camadas de recheio em cada uma delas. É ver a imagem acima. O gosto, esse, é impossível de descrever com palavras mas fica a garantia que era soberbo!

Depois de me empanturrar com aquilo comprámos bolos para sobremesa e já a pensar também na ceia e pagámos. O preço foi mais uma vez surreal. Acho que por tudo aquilo deu uns 3 Euros a cada um.

Estava na hora da soneca da tarde. O Abdou conduziu-nos a casa e desapareceu para a sua própria soneca, com a promessa de voltar mais tarde para nos levar à última visita guiada desta passagem pelo Vale de M’Zab. Os dias de Ghardaia estavam a chegar ao fim. Foram apenas dois, mas muito intensos. Contudo, para o fim estava guardado o melhor bocado.

Estacionámos mesmo junto aos portões de Béni-Isguen. A cidade de Abdou. Entrámos e, logo ali do lado direito, estava o posto de turismo. O guia não tinha ainda chegado. O Abdou tinha que ir a casa e ficámos ali sentados, à espera.

Veio o guia mas não o Abdou. Íamos iniciar o passeio quando chegam duas francesas que educadamente tentam “roubar” a nossa visita em termos linguísticos mas o guia, fiel ao combinado, e depois de nos perguntar se falávamos francês, se manteve intransigente: a visita naquele dia era em inglês. Depois chega mais uma moça, que vim a saber trabalhar na embaixada austríaca em Argel e como tal vinha com um guarda-costas da polícia argelina. Juntou-se-nos. E enfim, o Abdou regressou. Estava formado o grupo para partir à descoberta de Béni-Isguen.

Depois de passarmos por um par de vielas chegamos a uma praça onde está a decorrer um mercado. Um mercado de velharias. Fabuloso! Só lamento não ter podido captar imagens de tudo aquilo. A praça do mercado está rodeado de casas, algumas com arcadas, e em frente dessas fachadas sentam-se homens que observam.

As estrangeiras tentam obter autorização deles para os fotografar, mas os homens afastam-se como que empurrados por uma força magnética.

Ouvimos as explicações do guia. Este será de longe o melhor guia dos três. Jovem e educado, fala um inglês fluente, é uma fonte de conhecimentos e dá imenso gosto ouvi-lo e conversar com ele. É o director da associação, da comunidade. O mercado funciona em sistema de leilão, os bens expostos são tão interessantes como o conjunto do evento.

Subimos um pouco, vamos evoluindo pelas ruas que trepam pela colina. O grupo é bom, gente simpática e interessada, acho que todos gostámos, incluindo o próprio guia.

Ele tem muito para nos explica. Fala da comunidade Mzabita, da cidade, dos costumes, da arquitectura, dos pequenos detalhes. Fala de muita coisa, até das razões que levam as pessoas ali a ter horror a fotografias: parece que antes da Guerra Civil, quando vinham muitos turistas, as pessoas perceberam que as imagens que lhes tiravam eram expostas publicamente e era isso que as horrorizava.

Chegamos ao topo. Há uma praça onde decorre uma partida de futebol. Está tudo óptimo! A luz, a  temperatura, o céu azul pintalgado de nuvens, o charme misterioso do local, a boa companhia e excelência do guia.

Ali subimos ao alto da torre mais elevada. São vários lances de escadas e de lá de cima a vista é uma loucura. Avista-se toda a cidade que nos envolve e, mais perto de nós, as ruazinhas da cidadela, os rapazes que jogam futebol. Num amplo terreiro um pouco mais afastado dois meninos brincam também com uma bola. São três pontinhos no espaço, temperados com a luz dourada do sol que se vai deitando.

Daquela torre parece avistar-se o mundo e vou rodando, vendo em todas as direcções. É tempo para descontrair, para conversar relaxadamente, colocar mais perguntas ao guia, brincar um pouco.

Vimos para baixo. O jogo de bola já acabou. Descemos calmamente, sempre falando animadamente. Havemos ainda de ver o pequeno museu instalado na própria casa do posto de turismo, uma colecção muito interessante, integralmente doada pelos elementos da comunidade.

Foi mesmo fechar com chave de ouro esta visita pela zona de Ghardaia! A noite começa a cair. Vamos beber um chá na ampla esplanada que existe às portas da cidade. Ali perto, num amplo espaço, um mar de carrinhas aguarda já pela manhã: será o grande mercado. Pela montanha acima há grupos de pessoas que trepam para ver o pôr-do-sol.

Preparamos o regresso a casa. O Abdou pára a carrinha próximo de casa dele e vai buscar o jantar, encomendado à esposa que, claro, nunca conheceremos.

No espaço exterior da casa o Salah está a petiscar com um grupo de amigos que saudamos de longe. Entramos. Passado um bocado os outros dispersam e o Salah junta-se a nós. Por essa altura já tínhamos jantado, a massa preparada com molho de tâmaras que degustámos de forma comunal, a partir de uma só tigela.

Aparece um amigo deles, também Couchsurfer, com excelente inglês, que trabalha num hotel, no maior hotel da região. Passa-se um serão muito agradável, a beber chá, preparado da forma tradicional. É a última noite. No dia seguinte ainda de madrugada iremos para o aeroporto, em direcção à próxima paragem: Constantine.

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no-reply@geopt.org (Ricardo Ribeiro) Cruzamundos Wed, 16 Oct 2019 17:00:00 +0100