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04 April 2012 Written by  António Almeida

Time Lapse - Viaja no tempo com o MakoShark2

Se falar em HDR, certamente o primeiro nome que te vem à memória é MakoShark2 que de vez em quando nos brinda com fantásticos trabalhos fotográficos.
Agora se falar em Time Lapse provavelmente pensarás que estarei com algum lapso temporal e não terei mais nada que fazer que não seja vir para aqui escrever umas tretas de fotografia.
Talvez seja verdade, mas Time Lapse é muito mais que uma lapso temporal, é uma técnica de fotografia que resulta em trabalhos que inevitavelmente te irão obrigar a dizer WOW…
Desde há algum tempo o MakoShark2 Team, a Célia e o Daniel, vêm explorando o Time Lapse e se não tiveste oportunidade de desfrutar o “City Life: Lisbon” aproveita esta oportunidade e, já agora, fica também a saber como se fazem estes obras de arte com luz.

GeoPT - O teu trabalho no campo da fotografia é conhecido na comunidade no HDR e surge agora o Time Lapse. De vez em quando faço o papel de "professor" explicando algum tema de fotografia. Sendo agora o aluno podes explicar em dois ou três parágrafos o que é isto do TimeLapse?

Daniel - De forma curta, é essencialmente um vídeo acelerado a ritmo específico e desejado que resume normalmente uma ou mais horas em segundos.
Para conseguir isto, captam-se frames (imagens) da cena a determinados intervalos. Esta captura pode ser feita de duas formas, através de câmara de vídeo (acelerando o filme em edição à velocidade desejada) ou utilizando uma máquina fotográfica accionada a determinado intervalo de tempo. A colecção de fotografias é depois transformada numa sequência de imagens no processo de edição (ao mínimo de 23,975 imagens por segundo), produzindo no final um vídeo acelerado, que é então o time lapse.

GeoPT - Para poder experimentar este tipo de projectos se calhar é necessário equipamento sofisticadíssimo e caro. Que ferramentas utilizas (máquinas fotográficas, tripés, flash, software, etc.)?

Daniel - Não necessariamente. De facto os melhores exemplos que podemos visualizar na Web listam normalmente um conjunto de equipamento de topo.
Na verdade e no extremo, apenas são necessários um tripé e uma câmara de vídeo ou máquina fotográfica que possa suportar a funcionalidade de intervalómetro (disparo automático por intervalo de tempo que se pretenda).
No time lapse o trabalho de edição é importante, é aí que se consegue o efeito "Wow" e é também aí que se despende mais tempo. As ferramentas são importantes, mas é sobretudo a técnica que apura o resultado.
Nos meus trabalhos não utilizo câmara de vídeo, opto pelo método da máquina fotográfica. Não tenho nada contra o método de vídeo, mas a fotografia permite-me um nível superior de qualidade de imagem (maior resolução) e sobretudo uma edição mais personalizada como é o uso de HDR. No que toca a equipamento, comecei por usar uma DSLR de entrada de gama (Canon 550D) com a qual produzi os primeiros vídeos.
Tornou-se pouco prática e não estava satisfeito com a qualidade de imagem (cor e nitidez). Foi aí que surgiu a Canon Powershot G12, uma máquina de topo na linha das compactas da marca. É essa máquina que passei a utilizar, e foi essa que pela adequação do seu uso ao propósito me fez vender a DSLR.
No terreno, recorro também a um tripé normal e adequado e ainda a uma calha motorizada (slider) para os planos corridos. Na edição trabalho as imagens recorrendo ao LRTimelapse (software livre) que permite "afinar" as fotos ao meu gosto e homogeneizar o aspecto. Depois crio a sequência em HDR (Picturenaut, Luminance HDR, SNS-HDR ou Photomatix). Finalmente importo a sequência HDR num editor de vídeo com essa funcionalidade (VirtualDub, Sony Vegas ou Adobe Premiere) onde faço a montagem e edição do filme.

GeoPT - Como conheceste o TimeLapse e a partir de que momento começaste a dedicar-lhe mais atenção?

Daniel - A técnica não é nova, e como a maioria, conhecia este efeito de alguns vídeos e filmes visto no passado. Mas o que me despertou verdadeiramente para esta área foi o vídeo "The Chapel" do director de fotografia polaco Patryk Kyzny. Recomendo a quem ainda não o viu, que o veja, foi por assim dizer, o verdadeiro primeiro vídeo HDR (sem contar os experimentais anteriores) a ser disponibilizado no grande público. Deixou-me literalmente de queixo caído. Fiquei "hipnotizado" pela beleza das imagens e pelo que o HDR permitia revelar. Depois de alguns dias a pesquisar, fiquei obstinado e não descansei enquanto não experimentei fazer algo do género. Foi nessa altura que comprei a minha primeira DSLR, eu que até nunca tive uma verdadeiro fascínio por máquinas Reflex.

GeoPT - Se fazer fotografia necessita alguma dose de paciência e persistência, o TimeLapse deverá ser algo apenas ao alcance dum monge budista ou dum pescador de praia habituado a estar horas a olhar para a ponta da cana sem que esta mexa. Quanto tempo dura o trabalho de fotografia duma cena, por exemplo a Ponte Vasco da Gama ao anoitecer?

Daniel - Felizmente não parto sozinho nestas "aventuras". A Célia (a segunda metade do team MakoShark2) que também é uma apaixonada da fotografia (talvez mais que eu) tem me acompanhado nas capturas de cena.
O maior trabalho acaba sempre por ser a preparação do equipamento (escolher a cena, montar tripé, calha, máquina). Depois é só deixar a máquina a disparar e aguardar. O tempo de espera varia. Pode ir desde 10 minutos (planos do "Forte da Graça") a 3 horas, como foi o caso do pôr-do-sol na Ponte Vasco da Gama.

GeoPT - Nesta cena, quantas fotografias trouxeste para casa, ou melhor, de quanto em quanto tempo carregas no obturador?

Daniel - Para uma cena de dia/noite (ou vice-versa) uso geralmentee 15 segundos entre fotos (idealmente algo entre 15 e 30 segundos). O pôr-do-sol na Ponte Vasco da Gama chegou às 700 e muitas fotos. Tipicamente para uma cena de 10 segundos ao débito de 23,796 frames (o mínimo permissível para "esconder" a montagem o olho humano) são necessárias 250 a 300 fotos.

GeoPT - Para realizar um trabalho como este é necessário algum estudo, planeamento e muitas horas de dedicação. Explica como surgiu esta ideia, como escolheste os diferentes locais e horas e, no total, quanto tempo dedicaste até este produto final?

Daniel - É difícil avaliar o tempo e trabalho que um filme destes requer. Dado que faço isto como um hobby, tudo nasce de uma ideia, e vai sendo executado à medida do meu tempo livre e disposição. Sem pressas nem compromissos, vou passando pelos locais, fazendo alguns ensaios e capturando as cenas. Quando fico satisfeito com o número de cenas começo a edição. Ainda antes disso há lugar ao processamento das fotos (ajuste e HDR), e este consome muito tempo de máquina. Basta imaginar que um filme terá no final uma dezena de cenas a 300 fotos cada, em números mais de 3000 fotos para processar. Depois na edição dou azo à criatividade, misturando as cenas ao som da faixa áudio. O trabalho das "Minas de São Domingos" foi feito em dois ou três dias, tal era a vontade de ver o resultado final.
O "Forte da Graça" e o "City Life: Lisbon" foram feitos cada um em cerca de um mês, aos finais de dia e fim-de-semana.

GeoPT - Conseguimos observar que determinadas cenas começam com muita luz e terminam com noite. Como fazes para controlar a exposição?

Daniel - É o chamado "Santo Graal" do time lapse. De facto, tecnicamente é muito desafiante e foi isso que tentei procurar no último trabalho ("City Life: Lisbon") que é essencialmente um trabalho experimental nesta técnica. Depois de várias tentativas acabei por encontrar um bom workflow para estas cenas.
Consensualmente, para o time lapse, a máquina deve estar em modo de prioridade à abertura com controlo de brancos trancado. Geralmente, e no caso de paisagens quer-se uma distância focal alta, foco manual a infinito.
No caso de ser uma cena de dia/noite é preciso não fechar demasiado abertura, isto porque a luz também nos vai nos fazer falta quando estiver de noite, podendo elevar o tempo de abertura para valores inaceitáveis. Pode-se jogar com o ISO, mas eu prefiro evitar o ruído e deixá-lo a 100 para cenas com luz artificial até ao máximo de 320 para ausência de luz. Como a fotografia é uma questão de equilibrar bem as variáveis para a cena que temos à nossa frente.

GeoPT - O que fazes ao tempo quando a maquina está a fotografar? Levas alguma cadeirinha e pões-te a ler a Bola ou bates uma soneca?

Daniel - Não fazemos nada a não ser apreciar o bonito cenário à nossa frente e espreitar de vez em quando a máquina para ver se tudo está a correr como esperado, e o tempo passa num instante, acredita. Bem, na verdade temos uns bancos transportáveis que tornam o momento um pouco mais confortável.

GeoPT - O que é que o TimeLapse te oferece para a realização deste tipo de projetos consumidores de muita disponibilidade?

Daniel - Na verdade é um hobby que não consome assim tanto o meu tempo. Como expliquei é algo que vou fazendo sem pressas e obrigatoriedades. Em termos de realização, acho que estimula o meu espírito criativo, algo que necessito e não consigo com muitas outras actividades. Depois, continuo a ficar de queixo caído perante um bom filme de time lapse HDR.

GeoPT - Se eu quiser fazer um trabalho com o TimeLapse com a minha compacta o que devo fazer, ou melhor, por onde devo começar?

Daniel - Não está ao alcance de qualquer compacta. A funcionalidade de intervalómetro é fundamental para a captura de cenas e a grande maioria não tem essa opção, ou por vezes está mal implementada. Felizmente para as câmaras Canon compactas da série Powershot existe um fabuloso firmware customizado (CHDK, Canon Hack Development Kit) que quando instalado disponibiliza (entre outras funcionalidades) a possibilidade de execução de scripts (programas). Depois, basta copiar um dos vários scripts de intervalómetro disponíveis e ficamos de imediato com esse automatismo na máquina. Com isto e um tripé, temos tudo o que é preciso para começar.
É claro que temos de conhecer os limites da nossa máquina, e se esta não possibilitar grande controlo manual, o melhor é começar por cenas simples diurnas.

GeoPT - Assistimos ao nascimento de um artista de TimeLapse em simultâneo com o desaparecimento do homem dos HDR?

Daniel - Provavelmente nem um, nem outro. Gosto essencialmente de vídeo, mas também de fotografia paisagística, e claro do HDR. Pode parecer uma obsessão minha, mas acredito muito no emprego desta técnica. Não levada ao exagero, claro. É perfeitamente possível utilizar HDR de forma natural para realçar áreas da imagem que não são fisicamente possíveis de capturar numa foto só.
Sempre que fotografo geralmente não me preocupo com o HDR. Por vezes identifico um bom cenário (com grande contraste) e opto por fotografar em três exposições. Mais tarde na classificação das fotos selecciono alguma para pseudo-HDR (de exposição única) e processo as outras com multi-exposições. Assim o "homem dos HDR" permanece, não tem é havido disponibilidade para o exercício, que geralmente acontece com geocaching e viagens.
Também não me vejo com um artista dos time lapse. Faço-o por carolice, com material amador e aos fins-de-semana, e não aspiro muito mais do que isso.
Digamos que aqui dentro do nosso retangulozinho é coisa que não me parece ter grande futuro. Há por aí mais duas ou três pessoas a fazer trabalhos deste género em Portugal, profissionais do meio. Mas reconheço que os melhores exemplos estão lá fora, e será provavelmente aí que se ganhará o estatuto de artista. Eu vou continuando a fazer umas brincadeiras ao fim-de-semana, que mostrem uns cantos bonitos da nação.

GeoPT - Existe alguma questão importante que não foi referida sobre o Time Lapse que queiras partilhar connosco?

Daniel - Talvez uma explicação da razão de ser do HDR. As SLRs mais recentes têm geralmente uma amplitude dinâmica à volta dos 8EV, o que poderá ser pouco para determinadas fotografias onde existe grande contraste. Depois ficamos com a sensação que o detalhe se perdeu nas zonas mais escuras e/ou mais claras. Se optarmos por fundir em HDR, três exposições distanciadas de -+2EV (-2, 0 e 2, portanto) estamos a aumentar a amplitude em cerca de 4EV. Se o fizermos em cinco exposições, estaremos próximo de uma amplitude de 16EV que se aproxima muito da capacidade do olho humano (qualquer coisa entre os 18-20EV). Estamos então a tornar a fotografia mais próxima do que vimos, e portanto em teoria mais real. As imagens surreais que surgem um pouco por todo o lado como HDR são resultado do processo criativo e não directamente da fusão de exposições. O software de HDR tem geralmente incluído no seu processo uma fase final de ajuste (tone mapping) sobre a imagem processada.
É geralmente aí que se "estragam" algumas fotos. Não é fácil, há que resistir ao Van Gogh que existe em nós e manter a imagem em parâmetros "aceitáveis" de brilho, contraste, saturação e equilíbrio de cores.
Aplicado ao vídeo, os critérios mudam, muito porque já estamos habituados à gradação de cor (color grading) na indústria cinematográfica que dramatizam com filtros de cor a cena que estamos a ver. Assim, uma cena detalhada, saturada, ou sobre um determinado tom não choca tanto o espectador, sendo até muito benéfica na questão apelativa. É por isso que aos meus olhos o HDR funciona melhor em vídeo (sem exageros claro) do que em fotografia, tornando as imagens mais bonitas e apelativas. Vendo bem as coisas, acaba por ser apenas mais um processo de "color grading". Creio que será apenas uma questão de tempo até que esta função venha incorporada na maioria das câmaras de vídeo.

GeoPT - Muito obrigado, és sem dúvida uma fonte de inspiração para quem deseje levar a fotografia para outros patamares.



3 comments

  • Comment Link Célia & Daniel 08 April 2012 MakoShark2

    Muito obrigado... O mérito vai também para o entrevistador que soube escolher perguntas interessantes e elucidativas.

  • Comment Link vsergio 05 April 2012 vsergio

    Impressionante.
    É inspirador.
    E ainda não conhecia o video de Lisboa.
    Fantástico.
    Obrigado

  • Comment Link FloraCardoso 05 April 2012 Lusitana Paixão

    Fantástico o vosso trabalho, Daniel e Célia é um orgulho contar com tanto talento ao serviço do GeoPT! Excelente entrevista :)

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