23de Outubro,2020

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ValenteCruz

ValenteCruz

Saturday, 17 October 2020 17:00

Reserva Natural Dunas de S. Jacinto

Numa manhã estival de outono rumámos até S. Jacinto à descoberta da reserva natural (GC32XTW), onde há dez séculos apenas existia mar. Outrora, locais como Ovar, Estarreja e Aveiro confrontavam-se diretamente com o Atlântico. Criou-se desde então uma língua de areia, que se consolidou ao longo dos séculos e formou uma ampla baía que antecedeu a laguna contemporânea. O cordão dunar conservou-se por vegetação espontânea e a florestação criada a partir do século XIX, quando decorreu também a abertura artificial do canal da Barra, que permitiu o regresso da água salgada à zona, adocicada por várias ribeiras e rios que ali desaguam, entre eles o Vouga. E assim se formou a Ria de Aveiro.

Estacionámos junto ao edifício da reserva, onde ficámos a conhecer mais pormenores sobre a história da mesma. Percebemos também que existem dois percursos circulares com distâncias distintas. Optámos pelo maior, com cerca de 7.5 km. De passagens anteriores pela zona envolvente havíamos ficado com a ideia que o percurso arenoso serpentearia apenas por vegetação rasteira comum e pinheiros bravos. Estávamos enganados. Ficámos impressionados pela qualidade do percurso e pela diversidade de vegetação, desde estornos, cardo-marítimo, soldanelas, camarinhas, cedros e acácias, como também pela sombra generosa que cobre boa parte do mesmo. Naturalmente, várias razões deveriam existir para a criação da reserva.

A meio do percurso surgiu o passadiço, com cerca de 500 metros, que dá acesso ao mar. Apesar de precisar de manutenção e ainda que a placa não o aconselhe, decidimos ir espreitar o mar. Na verdade, apenas o início do passadiço precisa de manutenção urgente e curiosamente está numa zona em que o mesmo não seria necessário. Chegámos ao final do passadiço e sentámo-nos a apreciar as pitorescas dunas protegidas, na fronteira com o mar. Após a descoberta, voltámos pelo passadiço e prosseguimos o caminho, seguindo em direção ao observatório de aves da pateira, que estava a ser utilizado por um fotógrafo especialista. Demos depois corda às sapatilhas e, sempre envolvidos por sombra e vegetação diversificada, fizemos o percurso de regresso ao edifício da reserva.

Passaram dez anos desde que descobrimos o geocaching. Geralmente descrito como uma “caça ao tesouro moderna”, rapidamente ficámos fascinados pelo contexto de secretismo do passatempo e sobretudo pelo potencial para descobrir novos locais e experiências. Dez anos depois chegámos às 4000 descobertas! No nosso caso, o passatempo acabou por nos aproximar da natureza. É sobretudo uma forma mais interessante, informada e contextualizada para descobrir locais e experiências que de outra forma poderiam não ser tão evidentes ou seriam mesmo desconhecidas. Obrigado pela partilha!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Friday, 10 July 2020 17:00

sunrise@CântaroMagro_20

Já se tornou tradição em mim que o solstício de verão seja acompanhado pelo vislumbre do nascer do sol no imponente Cântaro Magro, na serra da Estrela, onde a infinidade das vistas sobre o horizonte quase dão a volta ao mundo. Este ano, pelas limitações da pandemia Covid-19, a nona edição do sunrise@CântaroMagro_20 decorreu um pouco mais tarde e tornou-se familiar.

Durante o sábado, o meu plano inicial era fazer parte da subida iNtO tHe WiLd e assim engendramos a logística do carro. Chegamos a meio de uma manhã quente à Senhora do Desterro e iniciamos a caminhada junto ao canal de água do rio Alva, beneficiando da sombra. Após a passagem pela câmara de carga, seguimos pelo canal de água da ribeira da Caniça até aos Cornos do Diabo.

Após revisitar o curioso maciço rochoso, investi pela encosta até ao Porto dos Bois. O percurso complicou-se pouco depois, pela vegetação intransponível, e já não consegui chegar à Crista do Carvalhazinho. Desde a última vez que ali passei, na noite da grande aventura Oh Meus Deus – Ultra Trail Serra da Estrela 2016, o trilho deixou de ser frequentado, inclusive por pastores. Ainda fiz uma tentativa de subida pela ribeira, mas as variáveis eram muitas e não poderia atrasar o encontro na Lagoa Comprida.

Voltei para atrás, ainda a tempo de uma mudança de planos. Acabei deposto da organização e passei a tarde em praias fluviais. Fomos primeiro à interessante praia da Lapa dos Dinheiros e acabámos na concorrida praia fluvial de Loriga, onde nos delongamos no doce fazer nada, estendidos ao marasmo.

Rumamos depois ao Cântaro Magro e ficámos a saber que a estrada para Covilhã/Manteigas está cortada desde a rotunda de acesso à Torre, há já alguns meses, para arranjo do túnel que fica mais baixo. Deixamos o carro por ali e seguimos finalmente para o Cântaro Magro. É sempre fascinante admirar o gigante de pedra, sentir um assombro de inacessibilidade e vencê-lo logo de seguida.

À chegada ao topo tivemos oportunidade de contemplar um pôr-do-sol com cores magníficas. Os últimos raios de luz pintalgaram as nuvens num tom escarlate no céu azul. Instalou-se depois a noite e o silêncio. Como estava lua cheia nem precisamos de lanternas para vaguear pelo topo do cântaro. Aproveitei também para revisitar o manuscrito d’O tempo inquieto, que vai sobrevivendo à humidade. Com a ajuda de uma aplicação de telemóvel percorremos o caminho das estrelas e encontramos a lua alinhada com Júpiter e Saturno. O jantar arrastou-se depois por petiscos vários, mais ou menos serranos, e bom vinho.

O bom tempo e a ausência de vento acabaram por tornar a estadia muito agradável e deu para descansar mais do que o habitual. O sol apareceu pouco depois das 6h00, num céu limpo e sem nuvens, mas com a mesma magia de sempre. O astro rei pode nascer em todo o lado, mas ali tem uma envolvência e significado especiais.

Após um pequeno-almoço nas alturas, a descida do cântaro fez-se sem problemas. Passamos pela Torre para cumprimentar o pináculo lusitano e seguimos depois para a Lagoa Comprida, onde aproveitamos para uma caminhada, com vistas para o manto de água, até à Lagoa do Covão dos Conchos, onde pudemos assistir à romaria ao funil. No regresso ainda passamos na outra extremidade do túnel, onde a água desagua na Lagoa Comprida.

Foi um sunrise@CântaroMagro atípico, mas excelente! Teria gostado de ter mais amigos lá em cima, mas gostei de me reencontrar com o silêncio do cântaro e com uma certa essência original que se foi perdendo ao longo dos últimos anos. Gostei de viver a experiência sem a preocupação constante de colocar e retirar dezenas de pessoas do cântaro. Gostei de gerir a escolha do fim-de-semana conforme a meteorologia (em condições normais, seria uma semana antes e estaria mau tempo). Gostei de ter tempo para mim, nesta singela homenagem anual a uma experiência e locais inspiradores. Por tudo isto, talvez algumas mudanças venham para ficar. Para já, acrescento excelentes memórias a mais um sunrise@CântaroMagro.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Thursday, 02 July 2020 17:00

DraveTrail_20

Para além de alguns eventos mais esporádicos na serra do Gerês, existem dois eventos de realização anual que se tornaram num lugar comum para mim (quiçá uma necessidade espiritual): o DraveTrail e o sunrise@CântaroMagro. Este ano, a pandemia Covid-19 acabou por tornar inviável a realização dos eventos, mas tal não significa que os mesmos não possam ocorrer noutros moldes. E se não convém que existam ajuntamentos de pessoas, que seja então em modo solitário.

O DraveTrail ocorria em meados de maio, quando as encostas da serra da Arada estavam pintadas numa ternura púrpura. Por adiamentos vários, apenas consegui fazer a minha visita anual à mágica Drave no final de junho. O percurso escolhido foi o mesmo de 2015, mas com início em Cabreiros e descida ao rio Paivô. Saindo da aldeia, apanhei o Caminho do Carteiro e desci acelerado em direção ao vale mineiro. Passei pelo misterioso Poço Oito e prossegui depois para o rio. Cruzei a mina e cumprimentei de relance Rio de Frades, ainda adormecida.

O percurso objetivo abandonava o alcatrão e entrava numa encosta do rio. Porém, quando já andava a rastejar, tive de abortar o plano porque o trilho estava fechado pela vegetação. Cruzei a ponte e desci para o rio Paivô, um pouco antes da mistura das águas com o rio de Frades. Seguiram-se cerca de três quilómetros de rio, de pedra em pedra ou pela água. Em algumas passagens mais técnicas, nos rochedos sobre as lagoas, existem cabos de segurança que tornam a progressão ainda mais espetacular. Numa das lagoas, e como a manhã já ia quente, aproveitei para o primeiro banho do dia.

Perto de chegar à saída do rio, apanhei a boleia de uma ribeira e fui conhecer a aldeia de Emproa, que já esteve à venda. Desabitada há várias anos, as casas de xisto estão a ser recuperadas e a estrada está a ser aberta. Passei ao lado de Covêlo do Paivô e aproveitei uma paragem para o segundo-pequeno almoço. Fiz-me depois na Senda do Paivô em direção a Regoufe. Fosse pela falta de treino de montanha ou pelo calor excessivo, notei que o corpo estava em desgaste excessivo e optei por descansar alguns minutos à sombra de uma árvore solitária.

Regressei ao caminho, suspenso na encosta sobre o rio, com melhores expetativas e cheguei por fim a Regoufe, onde aproveitei para abastecer de água. Vencido aquele primeiro quilómetro de pedra solta, o resto do caminho para a Drave fez-se sem problemas, mas por esta altura já tinha deixado a corrida e estava a fazer uma gestão de esforço do tendão de Aquiles. A visão, em mirarem, para a Garra, do outro lado do vale, era simultaneamente maravilhosa e assustadora.

Ver surgir a aldeia da Drave, encravada entre as encostas íngremes da serra da Arada, é sempre especial. Também como já é habitual, havia alguns veraneantes por lá, em especial na lagoa. Aproveitei para descansar um pouco no centro escutista, espreitei a nova casa do silêncio e retomei a caminhada pelo rio. Seguiram-se cerca de seis quilómetros pelo leito da ribeira da Drave e depois pelo rio Paivô. Pelo meio aproveitei para mais um banho numa das muitas lagoas límpidas e transparentes. Na passagem pelo lugar do Pêgo descobri que a grande lagoa tinha desaparecido por quebra da barragem de pedra. A caminhada no rio acabou por ser bastante desgastante, tanto física como mentalmente. Porém, sabia o que se seguia, o que ia servindo para enganar a mente.

Cheguei por fim a local de saída do rio e iniciei a longa subida da terrível Garra. Ao longe, visto do Alto de Regoufe, parece uma simples linha pela cumeada. Ao perto, já cansado, é excruciante. Serviram-me os bastões e a certeza que tinha de chegar a horas para o jantar. Como todas as boas subidas, quando olhamos para cima e vemos um topo, acreditamos que a subida terminará ali. Porém, lá chegados, há sempre mais para subir. Assim é a subida da Garra.

Passei depois na zona dos antigos Três Pinheiros, que atualmente está reduzido a um e com os dias contados. Ali as árvores também morrem de pé, com os braços moribundos estendidos ao céu árido da Arada. Entrei então no Trilho Inca, esculpido habilmente em lajes de xisto na encosta abrupta, ladeado por belas vistas sobre o vale. Passei de soslaio por Póvoa das Leiras, uma aldeia criada no topo dos socalcos que lhe alimentaram o povo durante séculos, e entrei na rota das Bétulas. A partir do ribeiro o trilho está coberto de sombra pelo arvoredo que se espalha pela ladeira. Depois da subida pela aldeia do Candal, a distância plana e alcatroada até Cabreiros foi vencida sem problemas.

Um DraveTrail solitário, com cerca de 32 km difíceis em cerca de 11 horas de montanha. O trilho pode ser visto aqui. A tecnicidade dos percursos da serra da Arada pode ser extenuante, enquanto se desafia o corpo e a mente. Mas a espetacularidade e beleza dos trilhos fazem também com que seja uma experiência incrível de comunhão com a Natureza. Quanto à Drave, a aldeia continua a fascinar-me a cada regresso. Sai-o de lá sempre com a sensação de ter estado num lugar especial, cheio de recantos e histórias, de um Portugal interior, inacessível e esquecido, mas que de alguma forma nos criou a todos.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

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