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21 December 2020 Written by 

Trilhos e Quinta do Comandante

A Quinta do Comandante (GC92CH6), em Santiago de Riba-Ul de Oliveira de Azeméis, tem um passado trágico-romântico, engalanado por muitas histórias e mitos ao melhor estilo camiliano. Pertenceu a João Paes de Carvalho, comandante da Marinha Portuguesa. De visita ao Porto, o comandante apaixonou-se perdidamente por Inês Eugénia Knall. Venceu dogmas familiares para ver o amor correspondido e os dois foram habitar a mansão seiscentista da então Quinta do Outeiro, envolvida pela pacatez da província e longe do rebuliço citadino portuense. Várias lendas embrulharam depois a história de ambos, algumas com contornos fantasmagóricos, mas o que parece certo é que Inês faleceu a meio da vida e João enlouqueceu com a perda, acabando por suicidar-se em 1970.

Quando soubemos que a CM de Oliveira de Azeméis tinha criado vários trilhos pela quinta não quisemos adiar mais a redescoberta. Visitámos pela primeira vez a Quinta do Comandante nos idos de 2011 em busca da lendária Fallen Angels, que redefiniu e inspirou o letterboxing no país. Dessa noite, para além da extraordinária experiência de caça amaldiçoada a tesouro, recordo que ao terminarmos a busca notámos a chegada de algumas pessoas. Sem que eles nos tivessem notado e estando dentro da mansão, pegámos num lençol que encontramos por lá e escondemo-nos no cimo da escadaria. Quando o grupo começou a subir a escadaria, entre a escuridão e as lanternas medrosas, deixámos cair o lençol sobre as suas cabeças. Foi tão assustador e divertido que chegou a fazer cócegas na alma.

Chegámos ao lugar de estacionamento do edifício da Escola Superior de Aveiro Norte numa manhã cinzenta, mas de boas promessas. À escolha tínhamos os trilhos de caminhada, BTT e trail, que coincidem em alguns troços. Com alguns desvios pelo meio, optámos pelo da caminhada. O arvoredo outonal envolvente e as ruínas abandonadas tornam o percurso muito interessante, ideal para uma passeata bucólica. Chegámos à mansão com o entusiasmo em alta e começámos por visitar o esconderijo final dos anjos caídos, atrás dos bonitos azulejos, cujos fantasminhas ainda se mantêm colados à parede esquecida.

Por sorte, ainda conseguimos aceder ao interior da mansão, que as obras de emparedamento das janelas e portas não assegurará por muito mais tempo. Apesar da ruína e abandono, nota-se o rico passado. Subsistem resquícios de tectos elaborados, azulejos e várias pinturas. Em muitos locais, o chão e as paredes esburacadas parecem que irão ceder à próxima brisa. Cirandando por lendas e histórias, subi ao último andar e fui à procura dos registos do comandante. Talvez a meio caminho de um desespero de amor enlouquecido, entre o visível e o invisível, subsistem os escritos nas paredes que o comandante terá escrevinhado em forma de diário. É, simultaneamente, uma leitura fascinante e aterradora!

Após a redescoberta da mansão, fomos em busca das ruínas envolventes. Parece uma viagem ao passado ao melhor estilo de uma caça ao tesouro. Seguindo as pistas, encontrámos a versão mais recente do diário do comandante e registámos a nossa visita. Adorámos encontrar um recipiente e um livro que fazem jus ao legado histórico da experiência, tanto pela cache que a precedera como pelo cenário envolvente.

Continuando pelo trilho da caminhada, e após alguns desvios ao percurso de trail, alcançámos o edifício da escola e o final deste capítulo. O carácter futurista do edifício contrasta com as ruínas circundantes e perfaz um panorama muito peculiar e interessante. Na memória fica a redescoberta fantástica, por entre as reminiscências esquecidas de um amor infinito, assim como a promessa de um regresso para explorar melhor o circuito de trail.

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 



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