27de Novembro,2021

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ValenteCruz

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A travessia da Serra Amarela era um plano adiado desde a épica aventura das Montanhas Nebulosas, há cerca de sete anos atrás. Com o objetivo de aproximar o trajeto à linha de fronteira e dadas as dificuldades do relevo, na altura optamos por traçar a caminhada com uma subida à vizinha Senhora do Xurés. Depois de muitas dificuldades de progressão, e também pelo discernimento do Joom, uma trovoada convenceu-nos que o melhor seria evitar a pernoita na serra e procuramos a proteção da capela de Santa Maria Madalena, junto à fronteira. Curiosamente, fomos acordados por uns “contrabandistas” que se lembraram de ir para ali fumar umas risadas a dois metros dos nossos sacos-cama e que até hoje creio que não terem dado conta da nossa presença.

Histórias à parte, naquela travessia, apesar de termos feito os quilómetros por outro lado, faltou vencer a Serra Amarela. Aproveitando mais uma corajosa expedição às Montanhas Nebulosas, juntei-me ao grupo para finalmente corrigir a história. Manhã cedo cheguei ao Castelo de Lindoso, onde o grupo ultimava os preparativos. Depois do reencontro e da foto da praxe saímos da aldeia e começamos a subir a encosta. A primeira parte do percurso pela estradão tem como principal motivo de interesse as vistas sobranceiras que se vão ganhando sucessivamente para a aldeia, o castelo, a albufeira e as encostas vizinhas.

Numa subida progressiva e acessível, depois de passarmos pela casa florestal, deixamos o estradão e continuamos por um trilho, o que tornou o percurso ainda mais interessante. Um pouco mais acima avistamos o desejado Curro da Travanquinha. Foi um prazer entrar no espaço murado e percorrer os metros até chegar ao abrigo, que parece estar em excelente estado de conservação. Depois, à medida que fomos subindo, o curro foi surgindo mais inteiro e elegante na paisagem, tendo como plano de fundo as montanhas e manto de água do Alto Lindoso. Chegamos então a uma zona com algumas árvores e fizemos uma pausa para mais um pequeno-almoço. Pelo menos no que diz respeito ao número de pequenos-almoços, neste regresso às montanhas nebulosas senti-me um verdadeiro hobbit.

Subindo pelo estradão, fomos ganhando outras vistas sobre os vales limítrofes. Contornando o vale, entramos depois no vale do rio Cabril e fiquei com curiosidade de regressar para explorar melhor esta zona mais abrupta. Após uma subida ao VG residente, voltamos ao caminho, passamos por um grupo de cavalos que descia a encosta e fizemos mais uma paragem junto a uma casa recuperada para serões de férias na montanha, que por sinal tinha muito bom aspeto. Por esta altura eu já ia pensando na bênção que seria ter por ali uma moradia espiritual para fugir ao rebuliço do dia-a-dia citadino.

Deixando o caminho, descemos pelo trilho e encontramos o melhor de dois mundos na Cabana de Rebordo Feio. Fiquei então rendido à maravilhosa localização do terreno, sobranceiro sobre o vale e com uma vista fantástica para a albufeira. Tudo ali parece estar num equilíbrio natural quase perfeito. Com algum arvoredo tornar-se-ia um paraíso! Voltando à subida, seguimos lestos até ao avistamento das Antenas da Louriça. Vagueando o olhar pela beleza reconfortante da serra, chegamos até à base do afloramento rochoso que sustém as antenas.

Como desconfiávamos do tempo disponível, optamos por não fazer o desvio até ao topo, por onde andei há alguns anos atrás a seguir as pegadas dos Contos da Montanhas. Após uma paragem no prado continuamos em busca da passagem para o outro lado do vale. Esta foi a zona que me suscitou mais dúvidas ao tentar delinear o trajeto das Nebulosas há alguns anos atrás. Porém, no terreno, o trajeto acaba por ser fácil de seguir. Depois do almoço, embrenhamo-nos por entre as giestas que dominam o caminho e chegamos ao início do muro, previamente referenciado, que nos haveria de levar até ao outro lado. Mais uma vez, as vistas são fantásticas!

Seguindo o trilho que vai serpenteando pelo muro, como pequenos desvios pelo caminho, fizemo-nos ao caminho da linha de fronteira e do desejado marco 60, que divide os distritos de Braga e de Viana, assim como os países ibéricos. Ali aproveitamos para um descanso mais demorado, guardando momentos e memórias. Foi muito bom regressar a este local, calcorreando as antigas rotas do contrabando fronteiriço. Dali avistamos o longínquo e vasto vale do Homem, ladeado pelos sucessivos picos por onde segue a linha de fronteira. Mais perto, notamos com espanto que do lado português havia sido criado um vasto corredor sem vegetação, porventura para proteger o parque nacional dos incêndios.

A descida pelo corredor fez-se sem complicações. Mais abaixo abandonamos a linha de fronteira e seguimos pelo estradão espanhol que nos haveria de levar à Portela do Homem. Infelizmente, a zona superior foi devastada por um incêndio e a paisagem está de luto. Esperemos que aquele mal nunca passe a fronteira. Mais abaixo, a zona conseguiu escapar às chamas, pelo que ainda mantém o encanto “miliário”. Já na Portela do Homem, passando os marcos, fomos comemorar a travessia com uma cervejinha.

Sete anos volvidos, finalmente consegui cumprir o troço da Serra Amarela, “um dos ermos mais perfeitos de Portugal. Situada entre o Gerês e o Lindoso, as suas dobras são largas, fundas e solenes. Sem capelas e sem romarias, cruzam-na os lobos, os javalis e as corças. A praga dos pinheiros oficiais ainda lá não chegou. De maneira que mora nela o sopro claro das livres asas e o riso aberto dos grandes sóis. Não há estradas, senão as da raposa matreira, nem pousadas, senão as cabanas dos pastores. É Portugal nuclear, a Ibéria na sua pureza essencial e granítica. Um pé de azevinho aqui, urzes milenárias acolá, um carvalho numa garganta, nenhum coração de entre o Douro e Minho pode deixar de se sentir aquecido e reconfortado em semelhante chão.”

Para cumprir as Montanhas Nebulosas falta apenas completar a travessia num só dia. Qualquer dia…

Aproveito ainda para agradecer os fantásticos registos que esta cache tem proporcionado!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

Friday, 12 July 2019 17:00

Ultra Trail Douro Paiva 19

Respeitando a tradição de participar numa prova de ultra trail por ano, a escolha deste acabou por recair no Douro Paiva. E antes que alguém se questione, acrescento alguns esclarecimentos: não é uma promessa religiosa; não fiz mal a ninguém e/ou não roubei nada que me obrigue a correr durante tanto tempo; a inscrição paga-se e várias vezes durante as provas questiono a minha sanidade mental. Apesar de tudo, ou mesmo talvez pelas razões referidas, o mundo do trail continua a fascinar-me. Não é propriamente pela vertente competitiva, mas sobretudo pelo desafio de superar desafios em trilhos técnicos de montanha. Nesta prova, acrescia o interesse da progressão pelo Vale do Bestança.

Como habitualmente, os treinos decorreram com percalços. Para além da preguiça de quem vai recomeçando à medida das necessidades, uns três meses antes ressenti-me de uma entorse, fiquei algum tempo parado e convenci-me que o melhor seria alterar a inscrição para os 40 km. A mês e meio da prova lá comecei a treinar duas vezes por semana, alternando distâncias, mas mantendo uma dificuldade ao nível planura marítima. Como sempre, o objetivo era sentir-me bem e ficar na metade inferior da tabela classificativa. Esta prova seria também a primeira em que usaria bastões.

Levantei-me um pouco antes do sol e lá segui para Cinfães, subindo o Douro. Levantar o dorsal trouxe um suspense inesperado, porque estive na fila errada e tive de correr para chegar à meta momentos antes do tiro de partida, atando como podia o chip da prova aos atacadores dos calções, facto do qual me haveria de arrepender mais tarde. Após o tiro de partido segui lesto pelas ruas de Cinfães, descendo depois em direção do rio Bestança. Na inclinação favorável todos os santos ajudaram; na regresso, todos os diabos haveriam de me contrariar.

Tudo correu bem até seguir o engano de um grupo que desceu sem necessidade quase até ao rio. Apenas me apercebi quando vi alguém a subir desanimado. Corrigido o engano, o percurso torna-se muito interessante, sempre rodeados por uma Natureza fantástica, galgando leiras e antigos trilhos agrícolas. Dada a beleza envolvente fui parando aqui e ali para captar algumas fotos. Decididamente, terei de regressar ao percurso com mais tempo. Ao chegarmos ao ribeiro de Enxidrô apareceram os primeiros obstáculos mais desafiantes, tanto pela subida mais ingrime junto à cascata (que gostei de rever) como pelas primeiras incursões dentro de água.

Saindo da ribeira enfrentei a longa subida para a capela de São Pedro, no cimo da serra. Nesta parte os bastões deram bastante jeito e ajudaram a progressão serpenteante pela encosta. As paragens nos postos de abastecimento foram sempre breves, apenas para abastecer de água e reconfortar o estômago. Essa gestão acabou por correr bem. Apesar de haver algum sobe e desce, nesta parte acabou por permitir a corrida de forma frequente, em particular nas descidas.

Aproximei-me depois da parte mais interessante do percurso, acompanhando as ribeiras. Apesar da dificuldade natural em progredir pela água e pelas pedras, a envolvência compensava tudo. Apenas lamentei não ter mais tempo para parar e tirar fotos. Prossegui então para o desejado Vale do Bestança, passei o rio subi para Soutelo. Foi a partir da antiga ponte de fundação romana que fiz a abordagem para as Fragas da Penavilheira, numa outra aventura. Tinha a expetativa que este percurso talvez passasse por lá, mas logo percebi que não. Acho que seria uma ótima mais-valia.

Ao passar no controlo percebi que o chip à cintura estava demasiado longe do chão para registar o tempo e tive de repassar ajoelhado. Segui depois em corrida pelo trilho, numa parte do percurso muito agradável de fazer. Voltando ao rio Bestança, iniciei depois uma fase de progressão com subidas e descidas alternadas e bastante técnicas pelas margens. Apesar de ser a parte mais interessante do percurso, a tecnicidade acabou por provocar algum desgaste natural. Em algumas partes, e também porque o discernimento já não era o melhor, tinha de parar dois ou três segundos para perceber por onde poderia passar sem arriscar uma queda, que poderia ser complicada. E é também isto que me encanta no trail, progredir por trilhos muito técnicos em locais fantásticos. Por outro lado, fico também com algum lamento pela Natureza ter de suportar o impacto da passagem de centenas de pessoas com pressa.

A chegada à última ponte do Bestança antes de encontrar o Douro marcou mais um descanso antes do desafio final. Uma longa subida com cerca de três km até à meta. Com as penas martirizadas, surgiu-me então uma forte dor lombar que me obrigou a algumas paragens, lembrando-me da parvoíce que é participar em provas de esforço com apenas treino de corrida. Pode ser que para a próxima a memória tenha pena dos sofrimentos do corpo.

A descida final para a meta foi uma corrida de objetivo cumprido e expetativas superadas. Vencer o desafio ao som de aplausos é sempre reconfortante. Foi também então que descobri que, oficialmente, não tinha estado na partida, por o chip não ter feito o registo. Porém, bastou uma simples explicação e logo tudo se tornou oficial. Os 40 km foram feitos em cerca de 7h30. Depois de recolher a medalha e de um pequeno descanso, regressei ao carro para descobrir que calor tinha feito rebentar a rolha da garrafa de vinho oferecida pela organização e o banco estava tão encharcado como bêbado.

Concluir uma prova de ultra trail é sempre fantástico, não apenas pelo momento, mas também pela superação de tudo o que necessário para participar nestes desafios. Para quem desconfia que isto pode fazer mal, direi apenas, de forma viciante, que ninguém tem necessidade daquilo que desconhece. Por mim, até para o ano, na Serra d’Arga! Muito obrigado à excelente organização da prova e parabéns a todos!

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

Thursday, 04 July 2019 17:00

Dia de vir a correr do emprego para casa

Está cientificamente provado que às vezes tenho ideias parvas. Por ciência entenda-se Ana Valente. No momento não percebi se a ideia formalizar o Dia de Vir a Correr do Emprego para Casa se enquadrava na categoria, mas há vontades que valem a pena ser testadas. Não consigo precisar o instante da inspiração, mas creio que foi quando pensamos em ir morar para a praia de Esmoriz, sobretudo pela excelente paisagem litoral. Como os cerca de 30 km que vão desde o centro do Porto até casa ainda exigem alguma preparação, a ideia foi envelhecendo nas barricas celebrais. A proximidade da participação na prova Ultra Trail Douro Paiva acabou por espevitar a oportunidade, mas o impulso final creio ter sido uma carta de agradecimento enviada por uma criança a contas com um problema de saúde que foi apoiada pela ação social da i2S, na qual contava que imaginava o melhor dia da sua vida a correr à beira mar, num dia cheio de sol. Ser feliz na simplicidade é uma arte que muitas vezes nos escapa por entre os ritos da modernidade.

A corrida ficou marcada para a última terça-feira antes da prova. No final do dia de trabalho equipei-me e sai desvairado pela rua do Zambeze. Lembrei-me quase de imediato porque não gostava de correr naquele ambiente citadino, sobretudo pelo trânsito de pessoas e veículos, assim como pelas sucessivas paragens em semáforos e cruzamentos. Atravessei a rotunda da Boavista e prossegui em direção à ponte da Arrábida. Estava com alguma dúvidas se conseguiria acertar com a entrada pedonal, mas correu tudo bem. A vista desde o tabuleiro da ponte é realmente fantástica! Já em Gaia, desci logo depois da ponte e cheguei à marginal, seguindo para a Afurada. Passei pela festa na rua de relance e foi acompanhando o Douro até à foz. Depois, fez-se o Atlântico, enorme, vasto e com muita praia para galgar.

Os passadiços e as ciclovias iam-se sucedendo em catadupa. O sol empoleirado no horizonte ia servindo de companhia e GPS. Em alguns locais ia fazendo paragens cirúrgicas para captar uma foto ou hidratar um pouco. Cheguei sem problemas ao Senhor da Pedra ao quilómetro 15 km e viagem ia a meio. Aproveitei para comer uma barra e tomar um banho de chuveiro. Em algumas partes, o passadiço já está um pouco maltratado e a corrida é mais difícil, sobretudo pela cedência da madeira ao colocar o pé, o que acaba por testar mais os joelhos. Mas correndo sobre pelas tábuas sobre os barrotes o efeito acaba por ser minimizado.

À passagem por Espinho o cansaço já se ia acumulando. Valeu ter entrado depois naquela que para mim é a zona mais bonita de praia na região, entre Espinho e Esmoriz. Como o sol ia baixando no horizonte a luz tornava a paisagem ainda mais bonita. Assim, a hora mágica da fotografia ia servindo de desculpa para mais algumas paragens de descanso e registo de momentos. Chegado à Barrinha, aproveitei um fantástico e bem suado quase-pôr-do-sol, passei a ponte de madeira sobre o manto de água sereno e convenci-me que o corpo ainda aguentava um pequeno desvio. Mas, chegado ao final, percebi que já não daria para muito mais. Os 30 km fizeram-se em cerca de 3 horas e eu fiz-me ao merecido descanso. Espero repetir o ritual nos anos vindouros. No final, o corpo ficou a queixar-se da ideia, mas a cabeça adorou. Mas, como em muitas outras ocasiões, amanhã deverão concordar. Afinal, devemos sempre seguir as ideias que fazem de nós quem somos, ainda que as ciências deste mundo indiquem o contrário!

 

  

 

Artigo publicado em cruzilhadas.pt

 

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